A imensidão calada das coisas

Penso o silêncio. Oiço o calar de tudo o que é calado. Encontro-me com a totalidade, com um universo que não fala comigo, com a imensidão calada das coisas. E fico só.

Nesse momento encontro a minha face outra, o meu eu que não conheço e não desvendo, porque calado, também ele. Fico ainda mais só. Todo. Eu. Só, eu todo. E adormeço. E finjo ser então calado também no meu sono. Finjo-me enquanto não sei quem sou ou o que desvendo.

A imensidão toda que pensei perde-se nesse pecado de fingir, nessa fronteira entre um bem e um mal que não conheço, mas que sinto, paredes-meias com a minha consciência do que é bem para mim e do que é mal para comigo.

Transfiguro-me no sonho e sinto um cheiro inválido e perene de nevoeiros oníricos que me fazem submisso de si. Perco-me, também, por isso. Porque não sei o caminho de volta. Porque não sei se é labirinto ou terra plana e limpa esta que piso.

Porque já não sei qual o momento de acordar.

(Texto escrito em 1989)

JEO

Respiração inconsciente

Há horas em que a minha consciência não me pertence. Não sou seu dono. Sou, sim, seu comandado obediente e subjugado. Quando assim é não sou eu quem por mim age, quem por mim se movimenta. Entro num transe seduzido e sem retorno.

É quando a noite se faz ao mundo e se ouvem uivos de lobos mansos ao longe, ecoando na gândara sob o corpo da lua.

Estar vivo, nesses momentos, é não sentir que se vive, é respirar sem consciência disso, é estar sentado diante de uma parede e imaginar o mundo em movimento nela. Estar vivo, então, é ter os olhos fechados e ver perfeitamente. Perfeitamente.

Assim como quem olha e vê.

JEO

Não mereço nada do que tenho

Amargamente me apercebo da hora tardia em que acordei. Até então vivi em sonhos. No paraíso de uma consciência liberta. Prazeres agora findos.

Já não há lugar para vícios inoportunos e excessivos.

Revejo a minha cara no espelho verdadeiro do mundo: este sou eu!, o ilusionado, o visionário acordado fora de tempo, o sonhador enovelado nas palavras mansas e arredias de tudo o que é vil e humanamente insuportável.

Não mereço nada do que tenho. Sanguessuga desde que nasci, até agora. Os meus olhos, agora (tarde) bem abertos, nada enxergam. A cor que vêem nas coisas é só sua, ficção ocular e frágil, mesmo assim.

Desfaleço. Ninguém me acode.

Há muito que não estava só.

(Texto escrito em 1989)

JEO

Equilíbrio

Estar vivo é ser constante como as pedras, móvel como as águas, seguro como as árvores ou as montanhas, e despejar a mente de tudo o resto, em equilíbrio.

JEO

O corpo sem a alma é como os pés sem o caminho

Dali Les elephants posters

"Les Elephants", por Salvador Dali

Porque não fingir um outro espaço?, um outro riso?, um outro ar que se respire? Porque não um alheamento do mundo objectivo que se vive todos os dias?

Um estado transitório no corpo, uma outra alma, um outro céu.

Os organismos fáceis revigoram nesta amálgama de dúvidas. Os outros..., os outros surpreendem-se com a luz e morrem sob um sol qualquer que descobriram.

Reescrevo uma esperança perdida. E nela me encontro deficientemente renovado. Perco a minha alma, não sinto fluir já o vento que senti quando era minha.

O corpo sem a alma é como os olhos sem a luz ou os pés sem o caminho. Anda à deriva e perde o norte das estrelas. Ganha outro, enganoso, que lhe faz mal à calma do espírito.

É assim o meu corpo nesta hora: destinado à deriva eterna, caso a alma não lhe flua aos olhos.

Fico impaciente com a demora e, enquanto espero, faço das palavras o meu caminho bussolado. Os meus sentidos lêem na folha branca as frases escritas ainda não decalcadas. Mas é mais dos olhos que me queixo, é mais desta paisagem em falta que me lembro, destas ervas e destes passos de areia quando a terra é quase mar, de tudo o que não vejo e sinto que me falta.

Quando dou por mim com as mãos escorrendo as faces - e me lembro daquilo já perdido - revogo o desejo de uma sede perdida e morta.

Porque a sede que matei não é a mesma fome de água que tive ontem. Foi sede passageira que esqueci e, agora submersa num organismo sem alma, de nada lhe vale o prazer que fez sentir a quem dela se saciou.

JEO

A minha hora é uma âncora

Pudera eu o mar nas minhas mãos. Quisera eu, ao menos, sonhá-lo. Todo. Invejo-o porque não cabe em mim, ao contrário do meu corpo que cabe todo nele. Submerso e submisso. Humilde, este corpo.

O oceano-mar é muita água para os meus olhos. É muito espaço. Demasiado, para que eu nele me aventure.

Desmaio, de tanta água. Perco o fôlego e o rumo. A minha caravela deambula saboreada por ondas de todas as marés. As suas velas afagam esta atmosfera marítima e azul onde me perco. Os meus olhos afundam-se na noite do mar como as mãos se afundam nos bolsos do casaco marinheiro.

A minha hora é uma âncora recortando as águas, assente num fundo de areia e conchas. O Sol aqui não borbulha, apenas remete as sombras para mais fundo, em baixo. Ondulantes e intocáveis.

O corpo dos homens é na terra barrenta, assente, sedenta, arada e parturiente das árvores e das flores.

Afago a cara e acordo. Do meu sonho uma lembrança: peixes nadando em 'terra de ninguém'.

JEO

O silêncio veste-se do dia. Por isso não se vê quando é olhado

Oak Arches

Quando o silêncio é verdadeiro, o Mundo vibra. O silêncio faz rodar o Mundo. Estremecer. Fá-lo girar, vezes que ninguém conta, à volta dos astros e de si próprio.

O Universo está cheio de silêncio. A pigmentação escura do astro sulcado de estrelas é a verdadeira cor desse silêncio, visceral destino das nuvens no outro lado do dia, história fantástica na órbita rente dos planetas em volta de todos os sóis que se não vêem, mas que estão lá, aqui, neste Universo que também é o das trevas, do mar e dos homens.

O silêncio veste-se do dia. Por isso não se vê quando é olhado.

O espaço sem som é o mundo despido, de frente para a Lua, nua também, e sem vergonha. Tem vergonha quem ouve os ruídos e sente neles música transparente revelando o seu corpo desprotegido frente ao espaço, cara a cara com as coisas simples.

Respirar o silêncio é estar calado, é ver crescer uma árvore ou uma manhã e acompanhar o movimento dos ramos e da névoa sem tomar fôlego ou fechar os olhos. Ver as coisas crescer é ser as coisas que crescem, é ser como elas, silenciar o corpo e evoluir.

Levantar-se é crescer em silêncio. É respirar sem suor nem esforço. Levantar-se é ser simples como o Sol: dar luz e ser feliz com isso. Sim. Ser feliz. Ser feliz em silêncio, sem vento nem palavras.

E estar parado?

Estar parado também é ser Sol, e dar luz por isso. Porque ser-se Sol é não se mexer. É ser uma pedra no campo à espera da chuva do inverno, e ser uma pedra no campo à espera do calor de julho ou de uma mão que nos lance até mais além, para dentro da água daquele ribeiro, ali ao fundo. Ser parado é ser pedra submersa neste ribeiro ou naquele mar que os livros me ensinam. É ser a geografia toda, sendo pedra, é ser todas as palavras, sendo letra.

O silêncio é isto: uma mão que se fecha esperando os dedos dormentes, para se abrir, de novo, projectando os dígitos todos à luz do dia em que isso aconteceu.

JEO

Pergunto

Para onde olhas quando olhas?

JEO

Porque não vejo

Retrato de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Persisto em tentar encontrar a palavra que justifique o destino dos homens e das coisas. Porque me inquieta o facto de as árvores não andarem ou de os cães não terem outra linguagem que não o latido ou os homens não terem outro remédio senão esquecer ou lembrar ou rir ou chorar ou ter frio e medo ao mesmo tempo.

Persisto, talvez, porque sou homem e sofro de medos vários, de sede, de calor ou de frio, de cansaço e pasmo. De saudade de ver tudo o que não vejo neste momento.

Em resposta à minha inquietude vejo fechada a porta desta mente humana e limitada. É a porta das dúvidas contínuas que se não abre nunca. A porta dos mistérios insolúveis, guardados em segredo nas arcas de deus, nunca e sempre misericordioso.

A insaciável sede de respostas faz nascer em nós a fé nelas.

Pergunto-me: “Saber uma árvore não será sabê-las todas?, quem olha para ela não vê tronco, ramos, folhas e pássaros nelas? Haverá, assim sendo, sempre, um tronco em cada árvore, ramos, folhas e pássaros que nelas fazem ninho”.

Com isto fico satisfeito.

Mas o que mais me perturba é a vinda da noite. Quando cai sobre os meus olhos, ela confunde não só as árvores com as árvores, mas as árvores com a montanha, com as flores, as pedras, os caminhos, os ribeiros. Então, quando é noite, tudo é árvores, tudo é flores e riacho ao mesmo tempo. Não posso olhar o escuro e dizer: “Ali está a árvore com folhas, tronco, pássaros”. Não posso. Porque não vejo.

O melhor que faço é deitar-me e viver a luz nos meus sonhos. Que são sempre de dia. Aí vejo tudo, e fico satisfeito com o mundo e com as coisas. JEO

Simplicidade simples

A simplicidade das coisas é o que elas são. Uma coisa é uma coisa. Se alguém houver que diga que ela é muitas coisas, então, é porque essa coisa já não é ela própria. Porque é outras.

JEO

São muitas as dúvidas, senhor

De que me servem as teorias senão para pensar um pouco e esquecer depois? De que me serve o sofrimento senão para sofrer um pouco e, depois, esquecer que sofri? De que me serve tudo se de tudo me esqueço? Para que existo? Não sei. E não me lembro.

JEO

Amigo

Dave Matthews Band - Faces Oversized posters (c) The Dave Mathews Band

O gozo que me dá ver-te de longe em longe...

JEO

Quem diria?

Ninguém há que impeça a dor de ser sentida, nem tampouco que a ferida se cure sem ser limpa. Esperar o tempo das coisas. Perceber que o riso é também deste mundo. Quem disse que isto nunca foi assim?

JEO

...

A. Aubrey Bodine - Seneca Rocks, West Virginia(August 1943)(Small) posters

A. Aubrey Bodine - Seneca Rocks (1943)

A pedra não ouve porque não pede que lhe falem.

JEO

Nunca te esqueças

Corres até ao fim dos campos e escrevo-te.

Quando chegares à tua meta não te esqueças de mim. Escreve também.

JEO

As cores servem para que vejas o mundo tal como é

Blacklight - Eye posters

As cores (esvaem-se por instantes. Vou)

servem para (um sítio qualquer onde me)

que vejas (inteiro. Prefiro ser assim)

o mundo tal (como sou. Mais fácil)

como é (não ser o mar).

JEO

Coi sas sol tas

Penso em como ser ão as noites. De es pera. Quantas vezes te vou en carar, de frente, sem que com isso me digas ou des vendes pensamentos t eus. Gosta ria de te rever a todo o mo mento. Acontecem coisas destas com pessoas normais como eu. O que sin to será, por ventura ou des ventura, um sentimento banal. Como as pessoas. Outras. As outras.

JEO

Sejam bem-vindos à minha escrita

Em jeito de apresentação, vale sempre a pena revelar quem é a pessoa que acontece por detrás das palavras. Mas esta pessoa existe? Se existe, para que serve? Vão acontecer por aqui coisas simples, aviso já. Serão aqui lançados pedaços do tempo que é o meu e que agora partilho. Uma viagem, portanto.

JEO