Regresso

De volta. Sempre de volta. A algum lugar. Ao princípio? A que arranque visceral regressei? Sou nascido ou renascido? Mas que me importa? É sempre bom voltar. JEO

Até ao fundo

(c) Rene Burri, La Jolla, 1979/Magnum Photos

Faço, de quando em vez, alguns silêncios. Finjo-me sombra, calado. No que é meu, apenas as mãos são liberdade. Os meus passos não são movimento. Antes fogem de si próprios, como a água do rio que ensaia sempre escapar-se do seu leito. Ao fundo, eu sou a pedra ao fundo desse rio. Sou o que resta das margens. A sombra, sim, a sombra quieta de mim mesmo. E, quando passo, não me vês, nem eu a ti. E, se nos trocarmos olhares, será engano por certo. Sim. Será engano.

JEO

De volta (ainda aqui)

Partir e voltar. Saber e ignorar. Abrir. Fechar. Em que momento te encontras? Sabes, sem dúdiva, defini-lo? A quem te abraças, o que dizes? Percebeste as tuas próprias palavras? E às outras, àquelas que não escolheste nessa hora, porque as abandonaste? Voltar e partir. Ignorar e saber. Já te encontraste? Talvez nunca. Talvez a toda a hora.

JEO

Os meus lugares

(c) Josef Koudelka, Paris, 1973/Magnum Photos

Sento-me sobre um pedaço de cidade. Estou num dos vértices do mundo. E não caio. O meu equilíbrio é estar sentado. E ver que tudo é descanso à minha volta.

Ocupo o meu espaço a cada instante. Tenho o meu lugar marcado em toda a parte. Porque sou eu quem faz daqui este lugar, quem se comove com ele, quem sobre ele descansa e perdoa o que quiser.

Os meus lugares são um de cada vez. E nunca mais são quando não estou. Os meus lugares são as pagarens trémulas do meu corpo. São suspiros de Sol quando é manhã. São vagas de mar que se perdem com o baque de mais uma onda, neste mundo de ondas incontáveis.

JEO

Quando a morte vem do mar

Veio uma onda e levou-me. E um sopro forte, forte demais, abalou tudo o que eu via. O chão que pisava fugiu-me. Deixei os olhos no mar. O que encontrei nessas águas? Um fundo tão fundo como o meu próprio silêncio. Abracei-me então a uma vaga e a maresia falou-me. Vens comigo porque é esse o meu desejo. E eu fui, comandado pela maré que me acolheu.

JEO

Ainda

Há sempre um tempo. Uma verdade. Um momento. Há sempre um ritmo. Uma cadência breve. Um respirar. Desbravo esse tempo, essa verdade, esse momento. E o ritmo que descubro revela a cadência breve dos meus dias.

JEO

Desde quando

(c) Antoine D'Agata/Magnum Photos

Misturei sobre a palma da mão duas longas memórias. Confundi ingredientes de passado. O tempo remexido. Os meus olhos. Sensações. Reencontrei-me com quem já não era. E voltei a ser eu. Sobre a minha mão. Arrepio. Fósforo momentaneamente incandescente. Brisa breve. Por onde fui? Onde cheguei?

JEO

Descobrir-te

(c) Ralph Gibson s/d

Porque me olhas assim? Porque me olhas? Desconfias?

JEO

Com essas tuas mãos

(c) Ralph Gibson s/d

Nasce a imagem. Inventa-se um corpo. Um delito da consciência. A transfiguração que acontece é contrabando. Cópia infiel. Porque o que antes era deixou de o ser nesse momento. Reinventar o que seja é interpretar, encenar, recriar, mentir dizendo. Socorro. Nada do que vejo é verdadeiro.

JEO

Espaço em branco

(c) Raymond Depardon/Magnum Photos s/d

Estas palavras não foram escritas aqui. Não estão neste lugar. Este ecrã não existe. Nada do que vês neste momento é o que vês neste momento. Tu não estás aí. Não respiras, nem esbugalhas os olhos. Não estás cansado. Não és. Quem és?

JEO

Encontros

(c) Alex Majoli 2004

São raros os momentos em que respirar é acto livre, se bem me entendes. São ainda mais raros os instantes que revelam que te faz falta respirar, percebes? Procura-os, combate-os e abre os pulmões à saciedade, ouves? Não queiras perder o fôlego ou, ainda pior cenário, o próprio sentido da vida. Concordas?

JEO

Adiro ao mundo sem respirar

Cansado. Morto. farto.

O fardo dos dias pesa como chumbo

e já nem a força da vontade me empurra para a frente

Levanto os braços ao tecto

rastejo por entre grãos de pó, incontáveis

quero, também eu, ser pó que me liberte

Adiro ao mundo sem respirar

Bocejo por prever de antemão o meu próprio futuro

lágrimas de sal sem mar nem ondas

Sujeito-me ao mínimo de mim

E assim, recluso do meu corpo exasperado,

fraquejo. Falta-me a chave do teu dorso.

Faltam-me os teus olhos

Que procuro para onde quer que me volte.

faltam-me os olhos.

Onde estou nesta manhã?

Quem me liberta do grito?

de onde virá quem me salve deste medo?

De que onda, de que mar?

Salvem-se, ao menos, os meus olhos,

para que voltem a chorar quando te fores.

Grito, maldito,

Até à rouquidão total e última

no vértice deste fôlego que me resta

Do eco que me chega

Não vejo notícias novas, nem nuvens

nem outra coisa qualquer que me alivie

Porque o meu eco é surdo, mudo e cego

e cambaleante de vontade

retrai-se nas paredes que me falam

Retiro tudo o que disse até agora

Volto costas às palavras

E faço beicinho

para que o eco me devolva tudo o que é meu.

(Texto escrito em Outubro de 1996)

JEO

A uma certa tarde

A uma certa tarde, não espero. Neste recanto aquecido da casa, não descanso. Moribundeio-me. Desvivo. Irrespiro.

Para onde páro, se não vou?

Com quantos dedos terei de dizer de novo que estou mais cansado que ontem?

Estou mais cansado que ontem.

Quantos dedos foram? Distraído, não me dou conta, sequer, das minhas mãos.

(Texto escrito em Janeiro de 1997)

JEO

Todas as dores menos esta

(c) Paolo Pellegrin/Magnum Photos 2003

Desejaria esvaziar-me do mundo, voltar ao zero de onde procedi. Ser, de novo, raiz profunda do fio de vida que me deu origem.

Desejaria não ser, por uma vez, quem e o que sou hoje e agora.

Desejaria não querer nada para mim, desactivar-me. Para voltar ao grau nulo do que fui.

Não desejar é o meu maior desejo. Mas, inoportuna, a vontade de querer já não me larga. Mantenho-me dentro de mim. E nunca me hei-de separar deste corpo que me transporta atormentado. Desejar, assim, o que seja é querer possuir o que não há, sentir o que não se dá, engolir coisa que nunca se comeu.

Dói-me a barriga. Melhor seria que a dor fosse, ao menos, outra. Qualquer. Todas as dores menos esta. Ou nenhuma.

Mas, afinal, o que me peço? Para que multiplico, assim, sem substância? Porque me dou a estes pensamentos?

Desejaria não desejar absolutamente nada. Dizer não. Desdizer-me, desviver, desacordar. O que me digo? Não quero ouvir! Quando me apago?

(Texto escrito em Novembro de 1996)

JEO

Tatuagem

 Healey - Circular Rhythms I posters Healey - Circular Rhythms II posters

(c) Healey - Circular Rhythms I e II

Este não é o meu círculo nem o meu desejo desejado. O risco que tracei na areia não é de agora. Anda, desaparecido e intacto, pelo mundo. Procura novos desejos e perde-se em outros chãos que não o meu.

Desenhei-te a lápis no meu corpo. Fiquei ferido de uma dor que nem sequer sentia. Porque me fugiste, logo ao primeiro banho.

Pensei - Então porque me lavo, se te deixo, assim, escrita e apagada, a pairar sobre o meu dorso?

JEO

Sinto vertigens ao pensar que cairia

Imagino-me inclinado no parapeito do mundo, pronto a saltar para lugar nenhum. Por quanto tempo se prolongaria esse pulo, essa queda? Onde me levaria essa viagem nocturna e estelar? Quem seria eu ao aportar ao lugar onde chegasse? Se chegasse?

JEO

Dez Encantos Sobre Saltam A Pele

A. Aubrey Bodine - High Rise Construction(c. 1950) (Large) posters

(c) A. Aubrey Bodine - High Rise Construction (1950)

I.

Esvaem-se no tempo pedaços de um corpo

Esvaem-se(sem mácula, sopros de um vento indefinido)

no tempo(reaberto sobre a planície calma, desfeita em sopros)

pedaços(de feno. Sobrevoam-na almas. Penadas. E uma só)

de um corpo(feita, qual estrela aberta rente aos olhos.)

Esvaem-se no tempo pedaços de um corpo

II.

Por onde caminhamos quando os olhos se fecham

Por onde(Espreitamos, a espaços, curtas pausas. Cintila um luz.)

caminhamos(Abertos, os olhos resguardam-se. Intensidade.)

quando os olhos se(Descobrem, desvendam-se em magias plenas)

se fecham(visitando de novo mais um Inverno claro.)

Por onde caminhamos quando os olhos se fecham

III.

Corre um vento forte sobre a minha cabeça

Corre(Livre, a consciência desenganada do mundo)

um vento(frio. Sobressai na pele. Resguardo-me do medo.)

sobre(Tudo avança em direcção a essa linha invisível, finita,)

a minha cabeça(dormente, que se revolta, esquecida do espaço.)

Corre um vento forte sobre a minha cabeça

IV.

A inconsciência faz-se dos medos dos outros

A inconsciência(Levanta-se, manhã clara, sobre a cidade.)

faz-se dos(Escombros. Despertam também para esse dia)

medos(de calores e vento. Faz Verão. Espera por pedaços de luz)

dos outros(mais fortes que a intensa fraqueza da noite.)

A inconsciência faz-se do medo dos outros

V.

Quando os olhos falam do mar crescem muros em terra

Quando os olhos(São seres abertos na distância. Acorrem passados vários.)

falam do mar,(Fiéis e profundos. Saem do místico novelo dos dias)

crescem muros(renascidos de uma cinza volátil, despregada,)

em terra(como se fossem chama e luz e fogo e quente.)

Quando os olhos falam do mar, crescem muros em terra

VI.

Toco-te. E o teu rosto é o mundo todo desejado

Toco-te.(A uma hora qualquer. Encontro o dia)

E o teu rosto é(marejado, feito de calor. O corpo desfaz-se em carícias)

o mundo(de encontro ao solo aquecido das mãos.)

todo desejado(, o amanhã será hoje à mesma hora.)

Toco-te. E o teu rosto é o mundo todo desejado

VII.

Prefiro a chuva às flores colhidas

Prefiro(Saborear cada novo fôlego que me ofereces,)

a chuva(intenso mar. Corpos caídos, rentes,)

às flores(verdes, quando se acabam os trabalhos do campo)

colhidas(na pradaria fértil, oferecida e calma.)

Prefiro a chuva às flores colhidas

VIII.

Chega-te mais perto. Vem

Chega-te(Preferir o fruto que colheste? Retalhar,)

mais(a fundo, cada pedaço de verde. Solta-se um gemido)

perto.(Demasiado próximo. Estridente, angustiado,)

Vem(ao meu encontro. Toca-me sem arrepio.)

Chega-te mais perto. Vem

IX.

Para onde olhas quando olhas?

Para(Quem são estes dias? Passas)

onde olhas(sempre que te miro. O tempo)

quando(acaba, resvala por entre os dedos.)

olhas(e é como se a noite acordasse agora.)

Para onde olhas quando olhas?

X.

Sempre que respiras o transe do meu corpo

Sempre(Renegado por carícias, perco-te em tremores)

que respiras(mansamente, fora do meu beijo coagulado em tua face,)

o transe do(mundo inteiro, miragem arquejante do teu sono.)

meu corpo(E minhas mãos sobrevivem à ausência. Fracos de fome.)

Sempre que respiras o transe do meu corpo

JEO

De tudo o mais faça-se pó

Uma luz morna irrompe sobre as costas da floresta. Um ganir de cão sobressalta pombas esquecidas de deus. Miserável crime. O abandono. Respirar nessa hora é cumprir o mais puro egoísmo. É ser-se deus também. Matem-se as pombas. De que mais nos socorremos quando o transe, a angústia e o medo nos agrilhoam? À morte. À morte dos outros. Massacre! Desfaçam-se todas as pedras; amontoem-se os escombros e juntem-se-lhe os ratos mortos. Restos. Despejem-se em qualquer lugar os despojos dessa fúria incontida, moribunda. Deus há-de ser testemunha dessa festa. De tudo o mais faça-se pó.

(Texto escrito em Março de 2003)

JEO

Um Neruda

Bloom - Running Leopard posters (c) Bloom - Running leopard

"A vida acaba definitivamente nos meus pés"

Pablo Neruda, in "Antologia Breve"

JEO

De volta

 Picasso - Dove of Peace (serigraph) posters

Picasso

Após seis dias de pausa, é sempre bom voltar. Mesmo sem comentários. E só para picar o ponto, como se diz por aí.

JEO

À espera da próxima vez de respirar

Brassaï - Brouillard, Avenue de l'Observatoire posters

(c) Brassaï - Brouillard, Avenue de l'Observatoire

Percorre-me uma hora nocturna. Saio. Desinfecto-me do mundo. Há por aqui oxigénio que chegue para sufocar um pouco menos. Neste ambiente subterrâneo encontro todas as frases. Todas as imagens. E fico-me por aqui. Sentado, à espera do próximo metro.

À espera da próxima vez de respirar.

Se não sufoco é porque não quero morrer agora. Mesmo. Esta agonia é passageira, apesar de tudo. Breve e passageira.

Ainda é noite aqui por baixo. Noite eterna, porventura.

Passam caras. Passam passos arrastados num silêncio velado, que não meu. Passam, abraçados, namorados, no compasso dos passos que se dão. E dos beijos que prometem com os olhos.

A esta hora, o ritmo do mundo marca-se com rugido de comboios, luz de túneis e linhas de carris. A esta hora já não há quem seja humano. Aqui dentro (debaixo) tudo é máquina, ruído e luz. Ruído e luz. E eu estou lá dentro. Faço-me máquina também.

Procuro sensações. Procuro imagens. Tudo me foge perante o sono. Tudo me escapa a este ritmo. Vou perder o próximo autocarro. Ainda há homens que se arrastam, limpos, penteados, bem vestidos. Farejam a vida com mãos cegas. Afinal, a vida é que anda atrás deles. Ronda-os o prazer de sentir felicidade. Ronda-os apenas. Não os toca. Não os quer. Nem os toma, jamais, para si.

Vou sair deste túnel. Regresso à vida. À superfície. Faço-me sozinho. Percorro as minhas avenidas. Aqui o ar seria menos poluído sem os carros-humanos-que-são-máquinas.

JEO

Uma imagem

Picasso, Pablo - Bullfight II - Matador posters

Picasso

Toureiro universal.

JEO

Essas pupilas

A. Aubrey Bodine - Heavy Seas(c. 1950) (Large) posters

A. Aubrey Bodine - Heavy Seas (1950)

Perplexo, sempre e mais uma vez, frente a esta página em branco, fixo os teus olhos. Neutros, da lonjura. Não me vês?

Olha-me de fronte: diz-me o que entra nos teus olhos. Descreve a minha imagem transmutada no teu corpo. Redige-me. Pinta aos meus ouvidos as cores da minha boca, dos meus dentes.

Revê-me. Sê paciente. Recria em ti tudo o que sou e que recolhes.

Essas pupilas. Muito daria para voltar a beijar as pérolas desse rosto. A quem as deste?

(Texto escrito em Julho de 1997)

JEO

Ah, pois é

Pasme quem pensa que tudo o que existe é definitivo.

Avance quem sabe que essa certeza não passa de um logro.

JEO

A António Ramos Rosa - 80 anos

A calma é lua breve que se inspira - JEO

António Ramos Rosa completa hoje 80 anos. Muito daquilo que escrevo é culpa sua. Cresci com a sua palavra, com o seu silêncio. O seu estar quieto das coisas.

Deixa-me aqui mais esta marca.

Eu deixo-lhe também um agradecimento.

JEO

No centro de mim

Abate-se uma nuvem de lágrimas sobre a cidade. Corpos de mulher abarcam os meus olhos. Completos, esses gestos. Movimento. Ritmo sob as lágrimas da chuva.

Dentro da cidade triste escorrem passos incontáveis. Rostos, ilusões e miragens. Máquinas urram no espaço, dominam, à passagem, os meus ouvidos assombrados. Distraem-me dos corpos das mulheres. E passam, numa constância que enerva.

Não vou chegar a tempo ao meu destino. Passam-se as horas. Perco o espaço que me resta. O compromisso que fiz comigo. Dei-me um limite que devo cumprir. Até à hora marcada, no centro da cidade das nuvens de lágrimas.

No centro de mim.

JEO

Sempre a dúvida

De que me servem os olhos se não vejo o que não vejo?

JEO

Faltas-me aos olhos

Saciei-me da fome. Matei a sede. Falta-me, contudo, a substância. Uma só. A vitamina da alma e do desejo. Insosso, o correr dos dias resfria-me a língua. Sem o sabor do teu corpo. Longe. Tenho fome. Da sede, dessa, não me lembro já de a beber com o que mes resta de alma. Faltas-me aos olhos. Aparece.

JEO