(c) Ferdinando Scianna, Brooklin, NYC, 1985/Magnum
É manhã e não te ouvi ainda qualquer passo. Por onde andas, que me atormenta o teu silêncio?
Porque não te mostras?
Serás, também tu, página em branco?
JEO
(c) Ferdinando Scianna, Brooklin, NYC, 1985/Magnum
É manhã e não te ouvi ainda qualquer passo. Por onde andas, que me atormenta o teu silêncio?
Porque não te mostras?
Serás, também tu, página em branco?
JEO
Perde-se tempo com nada. Nada se aprende. Nada nos bate nos olhos. Cegos, assim, e voluntários, não chegamos, sequer a descobrir-nos.
Se o tempo nos foge, porque não corremos atrás dele? Porque nos deixamos perder continuamente?
Se assim é, continuaremos, para sempre, derrotados. Apátridas de nós mesmos, corpos devolutos sobre quem até o pó se importa de assentar.
Envelhecemos brutos. E não nos damos conta de que nada vale se fecharmos os olhos sem querer - sem ter a mínima vontade - voltar a tê-los abertos por um pouco mais de tempo.
Um pouco mais, apenas.
JEO

(c) Rene Burri, La Jolla, 1979/Magnum Photos
Faço, de quando em vez, alguns silêncios. Finjo-me sombra, calado. No que é meu, apenas as mãos são liberdade. Os meus passos não são movimento. Antes fogem de si próprios, como a água do rio que ensaia sempre escapar-se do seu leito. Ao fundo, eu sou a pedra ao fundo desse rio. Sou o que resta das margens. A sombra, sim, a sombra quieta de mim mesmo. E, quando passo, não me vês, nem eu a ti. E, se nos trocarmos olhares, será engano por certo. Sim. Será engano.
JEO
Partir e voltar. Saber e ignorar. Abrir. Fechar. Em que momento te encontras? Sabes, sem dúdiva, defini-lo? A quem te abraças, o que dizes? Percebeste as tuas próprias palavras? E às outras, àquelas que não escolheste nessa hora, porque as abandonaste? Voltar e partir. Ignorar e saber. Já te encontraste? Talvez nunca. Talvez a toda a hora.
JEO

(c) Erwitt Elliot, Nova Iorque, 1947, Third Avenue El/Magnum Photos
Vou sentir saudades tuas.
JEO

(c) Josef Koudelka, Paris, 1973/Magnum Photos
Sento-me sobre um pedaço de cidade. Estou num dos vértices do mundo. E não caio. O meu equilíbrio é estar sentado. E ver que tudo é descanso à minha volta.
Ocupo o meu espaço a cada instante. Tenho o meu lugar marcado em toda a parte. Porque sou eu quem faz daqui este lugar, quem se comove com ele, quem sobre ele descansa e perdoa o que quiser.
Os meus lugares são um de cada vez. E nunca mais são quando não estou. Os meus lugares são as pagarens trémulas do meu corpo. São suspiros de Sol quando é manhã. São vagas de mar que se perdem com o baque de mais uma onda, neste mundo de ondas incontáveis.
JEO
Veio uma onda e levou-me. E um sopro forte, forte demais, abalou tudo o que eu via. O chão que pisava fugiu-me. Deixei os olhos no mar. O que encontrei nessas águas? Um fundo tão fundo como o meu próprio silêncio. Abracei-me então a uma vaga e a maresia falou-me. Vens comigo porque é esse o meu desejo. E eu fui, comandado pela maré que me acolheu.
JEO
Há sempre um tempo. Uma verdade. Um momento. Há sempre um ritmo. Uma cadência breve. Um respirar. Desbravo esse tempo, essa verdade, esse momento. E o ritmo que descubro revela a cadência breve dos meus dias.
JEO

(c) Antoine D'Agata/Magnum Photos
Misturei sobre a palma da mão duas longas memórias. Confundi ingredientes de passado. O tempo remexido. Os meus olhos. Sensações. Reencontrei-me com quem já não era. E voltei a ser eu. Sobre a minha mão. Arrepio. Fósforo momentaneamente incandescente. Brisa breve. Por onde fui? Onde cheguei?
JEO

(c) Ralph Gibson s/d
Nasce a imagem. Inventa-se um corpo. Um delito da consciência. A transfiguração que acontece é contrabando. Cópia infiel. Porque o que antes era deixou de o ser nesse momento. Reinventar o que seja é interpretar, encenar, recriar, mentir dizendo. Socorro. Nada do que vejo é verdadeiro.
JEO

(c) Raymond Depardon/Magnum Photos s/d
Estas palavras não foram escritas aqui. Não estão neste lugar. Este ecrã não existe. Nada do que vês neste momento é o que vês neste momento. Tu não estás aí. Não respiras, nem esbugalhas os olhos. Não estás cansado. Não és. Quem és?
JEO

(c) Alex Majoli 2004
São raros os momentos em que respirar é acto livre, se bem me entendes. São ainda mais raros os instantes que revelam que te faz falta respirar, percebes? Procura-os, combate-os e abre os pulmões à saciedade, ouves? Não queiras perder o fôlego ou, ainda pior cenário, o próprio sentido da vida. Concordas?
JEO
Cansado. Morto. farto.
O fardo dos dias pesa como chumbo
e já nem a força da vontade me empurra para a frente
Levanto os braços ao tecto
rastejo por entre grãos de pó, incontáveis
quero, também eu, ser pó que me liberte
Adiro ao mundo sem respirar
Bocejo por prever de antemão o meu próprio futuro
lágrimas de sal sem mar nem ondas
Sujeito-me ao mínimo de mim
E assim, recluso do meu corpo exasperado,
fraquejo. Falta-me a chave do teu dorso.
Faltam-me os teus olhos
Que procuro para onde quer que me volte.
faltam-me os olhos.
Onde estou nesta manhã?
Quem me liberta do grito?
de onde virá quem me salve deste medo?
De que onda, de que mar?
Salvem-se, ao menos, os meus olhos,
para que voltem a chorar quando te fores.
Grito, maldito,
Até à rouquidão total e última
no vértice deste fôlego que me resta
Do eco que me chega
Não vejo notícias novas, nem nuvens
nem outra coisa qualquer que me alivie
Porque o meu eco é surdo, mudo e cego
e cambaleante de vontade
retrai-se nas paredes que me falam
Retiro tudo o que disse até agora
Volto costas às palavras
E faço beicinho
para que o eco me devolva tudo o que é meu.
(Texto escrito em Outubro de 1996)
JEO
A uma certa tarde, não espero. Neste recanto aquecido da casa, não descanso. Moribundeio-me. Desvivo. Irrespiro.
Para onde páro, se não vou?
Com quantos dedos terei de dizer de novo que estou mais cansado que ontem?
Estou mais cansado que ontem.
Quantos dedos foram? Distraído, não me dou conta, sequer, das minhas mãos.
(Texto escrito em Janeiro de 1997)
JEO

(c) Paolo Pellegrin/Magnum Photos 2003
Desejaria esvaziar-me do mundo, voltar ao zero de onde procedi. Ser, de novo, raiz profunda do fio de vida que me deu origem.
Desejaria não ser, por uma vez, quem e o que sou hoje e agora.
Desejaria não querer nada para mim, desactivar-me. Para voltar ao grau nulo do que fui.
Não desejar é o meu maior desejo. Mas, inoportuna, a vontade de querer já não me larga. Mantenho-me dentro de mim. E nunca me hei-de separar deste corpo que me transporta atormentado. Desejar, assim, o que seja é querer possuir o que não há, sentir o que não se dá, engolir coisa que nunca se comeu.
Dói-me a barriga. Melhor seria que a dor fosse, ao menos, outra. Qualquer. Todas as dores menos esta. Ou nenhuma.
Mas, afinal, o que me peço? Para que multiplico, assim, sem substância? Porque me dou a estes pensamentos?
Desejaria não desejar absolutamente nada. Dizer não. Desdizer-me, desviver, desacordar. O que me digo? Não quero ouvir! Quando me apago?
(Texto escrito em Novembro de 1996)
JEO


(c) Healey - Circular Rhythms I e II
Este não é o meu círculo nem o meu desejo desejado. O risco que tracei na areia não é de agora. Anda, desaparecido e intacto, pelo mundo. Procura novos desejos e perde-se em outros chãos que não o meu.
Desenhei-te a lápis no meu corpo. Fiquei ferido de uma dor que nem sequer sentia. Porque me fugiste, logo ao primeiro banho.
Pensei - Então porque me lavo, se te deixo, assim, escrita e apagada, a pairar sobre o meu dorso?
JEO
Imagino-me inclinado no parapeito do mundo, pronto a saltar para lugar nenhum. Por quanto tempo se prolongaria esse pulo, essa queda? Onde me levaria essa viagem nocturna e estelar? Quem seria eu ao aportar ao lugar onde chegasse? Se chegasse?
JEO

(c) A. Aubrey Bodine - High Rise Construction (1950)
I.
Esvaem-se no tempo pedaços de um corpo
Esvaem-se(sem mácula, sopros de um vento indefinido)
no tempo(reaberto sobre a planície calma, desfeita em sopros)
pedaços(de feno. Sobrevoam-na almas. Penadas. E uma só)
de um corpo(feita, qual estrela aberta rente aos olhos.)
Esvaem-se no tempo pedaços de um corpo
II.
Por onde caminhamos quando os olhos se fecham
Por onde(Espreitamos, a espaços, curtas pausas. Cintila um luz.)
caminhamos(Abertos, os olhos resguardam-se. Intensidade.)
quando os olhos se(Descobrem, desvendam-se em magias plenas)
se fecham(visitando de novo mais um Inverno claro.)
Por onde caminhamos quando os olhos se fecham
III.
Corre um vento forte sobre a minha cabeça
Corre(Livre, a consciência desenganada do mundo)
um vento(frio. Sobressai na pele. Resguardo-me do medo.)
sobre(Tudo avança em direcção a essa linha invisível, finita,)
a minha cabeça(dormente, que se revolta, esquecida do espaço.)
Corre um vento forte sobre a minha cabeça
IV.
A inconsciência faz-se dos medos dos outros
A inconsciência(Levanta-se, manhã clara, sobre a cidade.)
faz-se dos(Escombros. Despertam também para esse dia)
medos(de calores e vento. Faz Verão. Espera por pedaços de luz)
dos outros(mais fortes que a intensa fraqueza da noite.)
A inconsciência faz-se do medo dos outros
V.
Quando os olhos falam do mar crescem muros em terra
Quando os olhos(São seres abertos na distância. Acorrem passados vários.)
falam do mar,(Fiéis e profundos. Saem do místico novelo dos dias)
crescem muros(renascidos de uma cinza volátil, despregada,)
em terra(como se fossem chama e luz e fogo e quente.)
Quando os olhos falam do mar, crescem muros em terra
VI.
Toco-te. E o teu rosto é o mundo todo desejado
Toco-te.(A uma hora qualquer. Encontro o dia)
E o teu rosto é(marejado, feito de calor. O corpo desfaz-se em carícias)
o mundo(de encontro ao solo aquecido das mãos.)
todo desejado(, o amanhã será hoje à mesma hora.)
Toco-te. E o teu rosto é o mundo todo desejado
VII.
Prefiro a chuva às flores colhidas
Prefiro(Saborear cada novo fôlego que me ofereces,)
a chuva(intenso mar. Corpos caídos, rentes,)
às flores(verdes, quando se acabam os trabalhos do campo)
colhidas(na pradaria fértil, oferecida e calma.)
Prefiro a chuva às flores colhidas
VIII.
Chega-te mais perto. Vem
Chega-te(Preferir o fruto que colheste? Retalhar,)
mais(a fundo, cada pedaço de verde. Solta-se um gemido)
perto.(Demasiado próximo. Estridente, angustiado,)
Vem(ao meu encontro. Toca-me sem arrepio.)
Chega-te mais perto. Vem
IX.
Para onde olhas quando olhas?
Para(Quem são estes dias? Passas)
onde olhas(sempre que te miro. O tempo)
quando(acaba, resvala por entre os dedos.)
olhas(e é como se a noite acordasse agora.)
Para onde olhas quando olhas?
X.
Sempre que respiras o transe do meu corpo
Sempre(Renegado por carícias, perco-te em tremores)
que respiras(mansamente, fora do meu beijo coagulado em tua face,)
o transe do(mundo inteiro, miragem arquejante do teu sono.)
meu corpo(E minhas mãos sobrevivem à ausência. Fracos de fome.)
Sempre que respiras o transe do meu corpo
JEO
Uma luz morna irrompe sobre as costas da floresta. Um ganir de cão sobressalta pombas esquecidas de deus. Miserável crime. O abandono. Respirar nessa hora é cumprir o mais puro egoísmo. É ser-se deus também. Matem-se as pombas. De que mais nos socorremos quando o transe, a angústia e o medo nos agrilhoam? À morte. À morte dos outros. Massacre! Desfaçam-se todas as pedras; amontoem-se os escombros e juntem-se-lhe os ratos mortos. Restos. Despejem-se em qualquer lugar os despojos dessa fúria incontida, moribunda. Deus há-de ser testemunha dessa festa. De tudo o mais faça-se pó.
(Texto escrito em Março de 2003)
JEO
(c) Bloom - Running leopard
"A vida acaba definitivamente nos meus pés"
Pablo Neruda, in "Antologia Breve"
JEO

Picasso
Após seis dias de pausa, é sempre bom voltar. Mesmo sem comentários. E só para picar o ponto, como se diz por aí.
JEO

(c) Brassaï - Brouillard, Avenue de l'Observatoire
Percorre-me uma hora nocturna. Saio. Desinfecto-me do mundo. Há por aqui oxigénio que chegue para sufocar um pouco menos. Neste ambiente subterrâneo encontro todas as frases. Todas as imagens. E fico-me por aqui. Sentado, à espera do próximo metro.
À espera da próxima vez de respirar.
Se não sufoco é porque não quero morrer agora. Mesmo. Esta agonia é passageira, apesar de tudo. Breve e passageira.
Ainda é noite aqui por baixo. Noite eterna, porventura.
Passam caras. Passam passos arrastados num silêncio velado, que não meu. Passam, abraçados, namorados, no compasso dos passos que se dão. E dos beijos que prometem com os olhos.
A esta hora, o ritmo do mundo marca-se com rugido de comboios, luz de túneis e linhas de carris. A esta hora já não há quem seja humano. Aqui dentro (debaixo) tudo é máquina, ruído e luz. Ruído e luz. E eu estou lá dentro. Faço-me máquina também.
Procuro sensações. Procuro imagens. Tudo me foge perante o sono. Tudo me escapa a este ritmo. Vou perder o próximo autocarro. Ainda há homens que se arrastam, limpos, penteados, bem vestidos. Farejam a vida com mãos cegas. Afinal, a vida é que anda atrás deles. Ronda-os o prazer de sentir felicidade. Ronda-os apenas. Não os toca. Não os quer. Nem os toma, jamais, para si.
Vou sair deste túnel. Regresso à vida. À superfície. Faço-me sozinho. Percorro as minhas avenidas. Aqui o ar seria menos poluído sem os carros-humanos-que-são-máquinas.
JEO

A. Aubrey Bodine - Heavy Seas (1950)
Perplexo, sempre e mais uma vez, frente a esta página em branco, fixo os teus olhos. Neutros, da lonjura. Não me vês?
Olha-me de fronte: diz-me o que entra nos teus olhos. Descreve a minha imagem transmutada no teu corpo. Redige-me. Pinta aos meus ouvidos as cores da minha boca, dos meus dentes.
Revê-me. Sê paciente. Recria em ti tudo o que sou e que recolhes.
Essas pupilas. Muito daria para voltar a beijar as pérolas desse rosto. A quem as deste?
(Texto escrito em Julho de 1997)
JEO
Pasme quem pensa que tudo o que existe é definitivo.
Avance quem sabe que essa certeza não passa de um logro.
JEO