Sou ainda eu quem fala aqui.
JEO

(c) Jonas Bendiksen, Uzbequistão, Vale de Ferghana, 2002
A religião sempre foi a ferida, não a ligadura.
JEO

(c) Monica Stewart, The Letter, s/d
Escrevo-te a partir do ano passado. Tenho sujos os pés, do caminho que percorri. Feridas. Marcas várias lembram-me que vivi por esses dias.
Escrevo sem saber o teu nome. Assim prefiro. Saber-te desconhecida. Desidentificada. Feita da espuma dos mares.
Escrevo-te porque penso não voltar a ver-te. Ainda que o contrário seja o meu maior desejo. Perturbante? Porquê se foste tu quem se afastou para longe?
Continuo. Em busca de um sal mais grosso que me vede estas lágrimas de água. Percebes? Fala! Diz qualquer coisa. Não te retraias no silêncio. Não te quero ouvir calada. Não te quero.
JEO
(c) John Vink, Magnum Photos. Anlong Veng (território dos Khmer Vermelhos), 1999
O povo reunido no adro da igreja já não suporta a espera. De súbito, a vaca da Quinta irrompe pela arena improvisada. António salta, corajoso. «Eh, toiro». Os espectadores deliram com o arrojo, muito antes da primeira investida.
Desleixado, António distrai-se e uma cornada certeira fá-lo perder-se do chão. Na queda, uma das pernas solta-se do eixo dos ossos, retorcida. A massa popular cai sobre o animal e tenta socorrer o valeroso azarado.
Mas, com uma calma de anjo, António refreia os receios da turba: «Só preciso de uma chave de parafusos. É que a prótese desenroscou-se».
JEO

(c) Hiroji Kubota, Magnum Photos. Xinjiang, China,1999. "Vendedor de pão no mercado de Kashgar"
Prostrado sobre o mecanismo da tostadeira, o velho coça a cabeça. A maquineta, tão velha quanto ele, desengonçara-se de tal forma que deixara de servir para o que quer que fosse. «Raios partam esta coisa», arranca, do fundo de si.
Vagaroso, gira alguns parafusos da engrenagem, bastante complicada, mas a broeta das tostas mantém-se silenciosa. Impecavelmente estragada. «Estás em greve de velhice», diz.
A máquina, afinal, espelha a imagem de quem sempre a comandou. O homem, vesgo de cansaço, decide desligar a ficha tripla.
O enterro de ambos foi simples. Entre amigos: máquinas com avaria e velhos cansados da vida.
JEO

(c) Antoine D'Agata, Magnum Photos "Mala Noche 1998"
Preso nos arbustos, Joca faz o que pode para se livrar do peso. Fugiu do canil mas o tempo de reclusão não lhe tolheu o instinto de liberdade. A trela pesa-lhe agora como nunca. Quer libertar-se dela a todo o custo.
Enquanto se debate com balanços fortes de pescoço, uma linda cocker atravessa-se-lhe ao caminho. «Cioso», Joca debate-se contra a coleira de aço inoxidável, que se enrola cada vez mais ao tufo de arbustos.
A bichana, distraída, balança-se rente ao pêlo de Joca. Terrível. Falta-lhe o ar. Sufoca. Morre. «Béu», atira a cadelita, num ladrar de fêmea vivida.
JEO

(c) Martine Frank/Magnum Photos, s/t, 2002
Manuel invadiu a sala das máquinas onde Maria, sua mulher e esposa, enformava botas e sapatos. «Vem comigo. Vem, não digas nada» Segurou-lhe na mão esquerda e puxou-a sem magoar para fora do pavilhão. Correram, em silêncio, com o sorriso apertado, em direcção ao mundo.
As outras mulheres desviaram os olhos do serviço, mas logo voltaram à tarefa. Distraídas do amor.
O casalzinho molhou-se na chuva de Maio e deu-se abraços longos. Outros beijos. Maria olhou a cara bêbeda de felicidade do homem seu esposo, e perguntou-lhe, sabedora da resposta: «A que horas voltas ao trabalho?»
JEO
(c) Ferdinando Scianna, Brooklin, NYC, 1985/Magnum
É manhã e não te ouvi ainda qualquer passo. Por onde andas, que me atormenta o teu silêncio?
Porque não te mostras?
Serás, também tu, página em branco?
JEO
Perde-se tempo com nada. Nada se aprende. Nada nos bate nos olhos. Cegos, assim, e voluntários, não chegamos, sequer a descobrir-nos.
Se o tempo nos foge, porque não corremos atrás dele? Porque nos deixamos perder continuamente?
Se assim é, continuaremos, para sempre, derrotados. Apátridas de nós mesmos, corpos devolutos sobre quem até o pó se importa de assentar.
Envelhecemos brutos. E não nos damos conta de que nada vale se fecharmos os olhos sem querer - sem ter a mínima vontade - voltar a tê-los abertos por um pouco mais de tempo.
Um pouco mais, apenas.
JEO

(c) Rene Burri, La Jolla, 1979/Magnum Photos
Faço, de quando em vez, alguns silêncios. Finjo-me sombra, calado. No que é meu, apenas as mãos são liberdade. Os meus passos não são movimento. Antes fogem de si próprios, como a água do rio que ensaia sempre escapar-se do seu leito. Ao fundo, eu sou a pedra ao fundo desse rio. Sou o que resta das margens. A sombra, sim, a sombra quieta de mim mesmo. E, quando passo, não me vês, nem eu a ti. E, se nos trocarmos olhares, será engano por certo. Sim. Será engano.
JEO
Partir e voltar. Saber e ignorar. Abrir. Fechar. Em que momento te encontras? Sabes, sem dúdiva, defini-lo? A quem te abraças, o que dizes? Percebeste as tuas próprias palavras? E às outras, àquelas que não escolheste nessa hora, porque as abandonaste? Voltar e partir. Ignorar e saber. Já te encontraste? Talvez nunca. Talvez a toda a hora.
JEO

(c) Erwitt Elliot, Nova Iorque, 1947, Third Avenue El/Magnum Photos
Vou sentir saudades tuas.
JEO

(c) Josef Koudelka, Paris, 1973/Magnum Photos
Sento-me sobre um pedaço de cidade. Estou num dos vértices do mundo. E não caio. O meu equilíbrio é estar sentado. E ver que tudo é descanso à minha volta.
Ocupo o meu espaço a cada instante. Tenho o meu lugar marcado em toda a parte. Porque sou eu quem faz daqui este lugar, quem se comove com ele, quem sobre ele descansa e perdoa o que quiser.
Os meus lugares são um de cada vez. E nunca mais são quando não estou. Os meus lugares são as pagarens trémulas do meu corpo. São suspiros de Sol quando é manhã. São vagas de mar que se perdem com o baque de mais uma onda, neste mundo de ondas incontáveis.
JEO
Veio uma onda e levou-me. E um sopro forte, forte demais, abalou tudo o que eu via. O chão que pisava fugiu-me. Deixei os olhos no mar. O que encontrei nessas águas? Um fundo tão fundo como o meu próprio silêncio. Abracei-me então a uma vaga e a maresia falou-me. Vens comigo porque é esse o meu desejo. E eu fui, comandado pela maré que me acolheu.
JEO
Há sempre um tempo. Uma verdade. Um momento. Há sempre um ritmo. Uma cadência breve. Um respirar. Desbravo esse tempo, essa verdade, esse momento. E o ritmo que descubro revela a cadência breve dos meus dias.
JEO

(c) Antoine D'Agata/Magnum Photos
Misturei sobre a palma da mão duas longas memórias. Confundi ingredientes de passado. O tempo remexido. Os meus olhos. Sensações. Reencontrei-me com quem já não era. E voltei a ser eu. Sobre a minha mão. Arrepio. Fósforo momentaneamente incandescente. Brisa breve. Por onde fui? Onde cheguei?
JEO

(c) Ralph Gibson s/d
Nasce a imagem. Inventa-se um corpo. Um delito da consciência. A transfiguração que acontece é contrabando. Cópia infiel. Porque o que antes era deixou de o ser nesse momento. Reinventar o que seja é interpretar, encenar, recriar, mentir dizendo. Socorro. Nada do que vejo é verdadeiro.
JEO

(c) Raymond Depardon/Magnum Photos s/d
Estas palavras não foram escritas aqui. Não estão neste lugar. Este ecrã não existe. Nada do que vês neste momento é o que vês neste momento. Tu não estás aí. Não respiras, nem esbugalhas os olhos. Não estás cansado. Não és. Quem és?
JEO

(c) Alex Majoli 2004
São raros os momentos em que respirar é acto livre, se bem me entendes. São ainda mais raros os instantes que revelam que te faz falta respirar, percebes? Procura-os, combate-os e abre os pulmões à saciedade, ouves? Não queiras perder o fôlego ou, ainda pior cenário, o próprio sentido da vida. Concordas?
JEO
Cansado. Morto. farto.
O fardo dos dias pesa como chumbo
e já nem a força da vontade me empurra para a frente
Levanto os braços ao tecto
rastejo por entre grãos de pó, incontáveis
quero, também eu, ser pó que me liberte
Adiro ao mundo sem respirar
Bocejo por prever de antemão o meu próprio futuro
lágrimas de sal sem mar nem ondas
Sujeito-me ao mínimo de mim
E assim, recluso do meu corpo exasperado,
fraquejo. Falta-me a chave do teu dorso.
Faltam-me os teus olhos
Que procuro para onde quer que me volte.
faltam-me os olhos.
Onde estou nesta manhã?
Quem me liberta do grito?
de onde virá quem me salve deste medo?
De que onda, de que mar?
Salvem-se, ao menos, os meus olhos,
para que voltem a chorar quando te fores.
Grito, maldito,
Até à rouquidão total e última
no vértice deste fôlego que me resta
Do eco que me chega
Não vejo notícias novas, nem nuvens
nem outra coisa qualquer que me alivie
Porque o meu eco é surdo, mudo e cego
e cambaleante de vontade
retrai-se nas paredes que me falam
Retiro tudo o que disse até agora
Volto costas às palavras
E faço beicinho
para que o eco me devolva tudo o que é meu.
(Texto escrito em Outubro de 1996)
JEO
A uma certa tarde, não espero. Neste recanto aquecido da casa, não descanso. Moribundeio-me. Desvivo. Irrespiro.
Para onde páro, se não vou?
Com quantos dedos terei de dizer de novo que estou mais cansado que ontem?
Estou mais cansado que ontem.
Quantos dedos foram? Distraído, não me dou conta, sequer, das minhas mãos.
(Texto escrito em Janeiro de 1997)
JEO

(c) Paolo Pellegrin/Magnum Photos 2003
Desejaria esvaziar-me do mundo, voltar ao zero de onde procedi. Ser, de novo, raiz profunda do fio de vida que me deu origem.
Desejaria não ser, por uma vez, quem e o que sou hoje e agora.
Desejaria não querer nada para mim, desactivar-me. Para voltar ao grau nulo do que fui.
Não desejar é o meu maior desejo. Mas, inoportuna, a vontade de querer já não me larga. Mantenho-me dentro de mim. E nunca me hei-de separar deste corpo que me transporta atormentado. Desejar, assim, o que seja é querer possuir o que não há, sentir o que não se dá, engolir coisa que nunca se comeu.
Dói-me a barriga. Melhor seria que a dor fosse, ao menos, outra. Qualquer. Todas as dores menos esta. Ou nenhuma.
Mas, afinal, o que me peço? Para que multiplico, assim, sem substância? Porque me dou a estes pensamentos?
Desejaria não desejar absolutamente nada. Dizer não. Desdizer-me, desviver, desacordar. O que me digo? Não quero ouvir! Quando me apago?
(Texto escrito em Novembro de 1996)
JEO


(c) Healey - Circular Rhythms I e II
Este não é o meu círculo nem o meu desejo desejado. O risco que tracei na areia não é de agora. Anda, desaparecido e intacto, pelo mundo. Procura novos desejos e perde-se em outros chãos que não o meu.
Desenhei-te a lápis no meu corpo. Fiquei ferido de uma dor que nem sequer sentia. Porque me fugiste, logo ao primeiro banho.
Pensei - Então porque me lavo, se te deixo, assim, escrita e apagada, a pairar sobre o meu dorso?
JEO
Imagino-me inclinado no parapeito do mundo, pronto a saltar para lugar nenhum. Por quanto tempo se prolongaria esse pulo, essa queda? Onde me levaria essa viagem nocturna e estelar? Quem seria eu ao aportar ao lugar onde chegasse? Se chegasse?
JEO

(c) A. Aubrey Bodine - High Rise Construction (1950)
I.
Esvaem-se no tempo pedaços de um corpo
Esvaem-se(sem mácula, sopros de um vento indefinido)
no tempo(reaberto sobre a planície calma, desfeita em sopros)
pedaços(de feno. Sobrevoam-na almas. Penadas. E uma só)
de um corpo(feita, qual estrela aberta rente aos olhos.)
Esvaem-se no tempo pedaços de um corpo
II.
Por onde caminhamos quando os olhos se fecham
Por onde(Espreitamos, a espaços, curtas pausas. Cintila um luz.)
caminhamos(Abertos, os olhos resguardam-se. Intensidade.)
quando os olhos se(Descobrem, desvendam-se em magias plenas)
se fecham(visitando de novo mais um Inverno claro.)
Por onde caminhamos quando os olhos se fecham
III.
Corre um vento forte sobre a minha cabeça
Corre(Livre, a consciência desenganada do mundo)
um vento(frio. Sobressai na pele. Resguardo-me do medo.)
sobre(Tudo avança em direcção a essa linha invisível, finita,)
a minha cabeça(dormente, que se revolta, esquecida do espaço.)
Corre um vento forte sobre a minha cabeça
IV.
A inconsciência faz-se dos medos dos outros
A inconsciência(Levanta-se, manhã clara, sobre a cidade.)
faz-se dos(Escombros. Despertam também para esse dia)
medos(de calores e vento. Faz Verão. Espera por pedaços de luz)
dos outros(mais fortes que a intensa fraqueza da noite.)
A inconsciência faz-se do medo dos outros
V.
Quando os olhos falam do mar crescem muros em terra
Quando os olhos(São seres abertos na distância. Acorrem passados vários.)
falam do mar,(Fiéis e profundos. Saem do místico novelo dos dias)
crescem muros(renascidos de uma cinza volátil, despregada,)
em terra(como se fossem chama e luz e fogo e quente.)
Quando os olhos falam do mar, crescem muros em terra
VI.
Toco-te. E o teu rosto é o mundo todo desejado
Toco-te.(A uma hora qualquer. Encontro o dia)
E o teu rosto é(marejado, feito de calor. O corpo desfaz-se em carícias)
o mundo(de encontro ao solo aquecido das mãos.)
todo desejado(, o amanhã será hoje à mesma hora.)
Toco-te. E o teu rosto é o mundo todo desejado
VII.
Prefiro a chuva às flores colhidas
Prefiro(Saborear cada novo fôlego que me ofereces,)
a chuva(intenso mar. Corpos caídos, rentes,)
às flores(verdes, quando se acabam os trabalhos do campo)
colhidas(na pradaria fértil, oferecida e calma.)
Prefiro a chuva às flores colhidas
VIII.
Chega-te mais perto. Vem
Chega-te(Preferir o fruto que colheste? Retalhar,)
mais(a fundo, cada pedaço de verde. Solta-se um gemido)
perto.(Demasiado próximo. Estridente, angustiado,)
Vem(ao meu encontro. Toca-me sem arrepio.)
Chega-te mais perto. Vem
IX.
Para onde olhas quando olhas?
Para(Quem são estes dias? Passas)
onde olhas(sempre que te miro. O tempo)
quando(acaba, resvala por entre os dedos.)
olhas(e é como se a noite acordasse agora.)
Para onde olhas quando olhas?
X.
Sempre que respiras o transe do meu corpo
Sempre(Renegado por carícias, perco-te em tremores)
que respiras(mansamente, fora do meu beijo coagulado em tua face,)
o transe do(mundo inteiro, miragem arquejante do teu sono.)
meu corpo(E minhas mãos sobrevivem à ausência. Fracos de fome.)
Sempre que respiras o transe do meu corpo
JEO