Há sempre um momento de lucidez que nos acontece. Sou, mesmo que assim não me considere, um "blogueiro". E, nestas artes, também há mandamentos. E estes merecem toda a atenção.
Um abraço para o "multibraços" Marco Santos.
© meninazul. fevereiro 2006. ne me quite pas
Faço pequenas pausas nos meus milagres. Sou ainda jovem e procuro, sem fugir, todas as coisas que não conheço e penso escuras. Todas as pequenas formas. Os movimentos da mão. Enfim, tudo por que uma adolescência tardia se admira.
© Juha Lehtomäki Winter cityHeinäpää, Oulu, Finlândia, 2000 Frente aos meus olhos, prédios. De cores vagas e antigas. Desgastados. Pedem amor, estas casas. Pedem, mas ninguém lho dá. Porque o amor, por aqui, é coisa vã, caso perdido. Não existe, nem brota do betume negro das estradas ou da luz dos candeeiros de rua. Por aqui o amor fugiu. Fez-se, porventura, a outros lugares. Deu-se a outras paragens, vagabundo de outras liberdades. O amor tinha sede. Foi beber água a fontes de aldeias, a minas e nos montes. Fez-se ao mundo, sedento de outros ares. Não passou por aqui. E, se passou, fez-se invisível, para não ser reconhecido. Para que não fosse confundido com as pedras da calçada nem com as persianas corridas das janelas. O amor não é das cidades. É fruto, seiva, caule e raiz do perfume das searas. O amor é na gândara livre. Na cor fria, lúcida e transparente dos riachos. O amor veste-se dos campos, aquece e arrefece ao ritmo de chuvas e estios, não se dilui no betão cinzento dos prédios. O amor quer espaço para saltar de corpo em corpo, de beijo em beijo. Quer-se sadio, firme e desinteressado. Verdadeiro. Entre uma árvore e um arranha-céus escolho o que me dá sombra e alimento, o que reage às tempestades e se balança com o vento. O que precisa de mim para saciar a sede. Escolho o que morre de pé e me dá lume. Nenhum prédio me dá carcódias ou folhas secas ou frutos. Neles morro de fome. Prefiro o amor de uma raiz de castanheiro ao plástico fingido que ornamenta os cantos de uma casa. Nunca beijarei uma parede. Antes uma folha morta de roseira. Mil vezes uma roseira morta a um prédio altivo. Sou ainda eu quem fala aqui.
(c) Henry Cartier-Bresson, Magnum Photos Porque te custa abrir os olhos? Porque te dói? Inventa emoções, inventa amores, desmultiplica-te. Faz-te outro. Reconheces-te ainda? JEO
(c) Bruce Davidson, Hastings, 1960, "Children playing on rocks" Lembras-te? De quando fazíamos os pés à estrada, ao pó e à lama, só para ver passar a água do ribeiro de Água d'Alto? De quando uma escádia nos magoava os dedos apenas porque queríamos experimentar a textura de um pedaço de madeira esquecido? De quando fumávamos uma palhinha à lareira, por inveja de ver o prazer na cara dos adultos que o faziam com mata-ratos? De quando nos batíamos só porque me passavas rasteiras no pelado da escola? De quando os "cóbóis" da aldeia nos destruíram a cabana de "índios" que contruímos com varas de mimosa? Ali, junto ao campo de futebol? De quando íamos à lenha?, às pinhas? Lembras-te? De que te lembras, afinal?
JEODesfazem-se num beijo os namorados
entrelaçam-se as mãos constantemente
conversam em sussuro amadamente
enquanto um velho ressona do seu lado.
~
Entreolham-se e vibram com vontade
murmurando amores docemente
e se cada olhar é tido como urgente
mais urgente ainda é a ansiedade.
~
Ela afaga-lhe os dedos sem saber
ele recebe carícias mansamente
ela sorri-lhe com olhos de serpente
ele toma-os como toques de mulher.
~
Cada um é objecto de um desejo
que se pediu tão sofregamente
quanto a sede que se bebe de repente
por um copo sobre o qual se dá um beijo.
~
Desconfiam dos olhares, do sorriso
que outros lançam com tez impaciente
e de pronto se escondem por vergonha ardente
em abraços que lhes tolhem o desejo.
JEO

(c) Peter Goldbeck "Angel cloud with rainbow", 2001
Faz por estes dias um ano que me lancei na alimentação deste blog. Não fiz por alardear a sua existência. Por via disso, talvez, contam-se por escassíssimas dezenas os comentários que nele foram feitos por terceiros. Mas isto não é sintoma de nada. A falta de participação pode mesmo decorrer - e nisso acredito - do já incontável número de blogs que entretanto nasceram, mais vigorosos, activos e apelativos que o meu. Deixo aqui um abraço a todos quantos, alguma vez, participaram no Fogo Fátuo, comentando o que foi sendo escrito. Da minha parte, regressarei ao suporte de papel. Se alguém sentir a perda, que me escreva para casa.
P.S. À MagnumPhotos, onde fui beber a maioria das imagens que lancei às chamas deste Fogo, o meu agradecimento.
Abraços
JEO
(c) Alex Majoli, Magnum Photos, in "Grécia, Leros, Mental Hospital", 1994
A minha posse é não ter nada. O que tenho é o que sou e o que quero ser. Eu e mais ninguém. E esta cor ninguém a quer e ninguém a dá. Por isso, por tudo isso, prefiro as palavras sem cor, que ninguém as conheça, sequer o nome. Nem o corpo, as formas ou a tonalidade do cabelo. Prefiro, sem mais, que o espaço ocupado das coisas tenha a cor que eu quiser delas e, querendo-as assim, e aceitando-as, que eu seja o que elas desejarem de mim. Sem mais.
(Texto escrito em 1989)
JEO
(c) Patrick Zachmann, Magnum Photos, in "Chili Les routes de la mémoire", 1999
Só não me lembro se chorava.
JEO

© Josef Koudelka/Magnum Photos, in "Gipsies", Jarabina, Slovakia, 1963
Mas, afinal, o que me peço? Para que me multiplico, assim, sem substância? Porque me dou a estes pensamentos?
JEO
© Bruno Barbey/Magnum Photos "On your bike", s/d
Sobra-me tempo. Falta-me o espaço. Ou será que se invertem os factores? O que me falta? Que se vaze a plenitude ou que se preencha o vazio? Oh, demasiadas, terrenas, interrogações!
JEO
(c) Joseph Koudelka, Irlanda, 1978, Magnum Photos
Balança o teu corpo em ondas de seara
para que tudo volte
ao que já era.
JEO

(c) Revista "Etcétera" nº 400, Espanha, s/d
São muitos os dias, senhor. São mais numerosas ainda as horas, os minutos. E eu continuo o meu caminho. Tortuoso, em dias cinzentos, menos mau quando acordo e me faz sol na cara. Pesam-me os próprios dedos. Desfaleço.
Toquem a rebate. Porque urge salvar alguém. E esse alguém sou eu.
De que me serve a sensualidade? As minhas pernas? Os meus maneios, as loções, todo o meu jeito? Para ser quem sou, assim, desesperadamente?
JEO

(c) www.kaibab.org
O que tu vês nas pupilas dos meus olhos, quando estão vermelhos, são sangue coalhado, concentrado, apertado. Mais espesso que o normal. Nada mais. Para lá desse sangue há um leito de rio onde o rio não está. Porque a água secou.
A água és tu.
JEO
(Texto escrito em Julho de 2001)

© Donovan Wylie/Magnum Photos, Inglaterra, in "Losing Ground", 1994
A lua não toma parte nesta cena.
JEO
Entrego-me ao mundo preso ao teu dorso. Dás-me rédea solta e, liberto da fuligem dos homens, dou saltos maiores que montanhas. Deixa-me reinar pelos campos contigo.
Faz-me sobrevoar os píncaros mais altos do que sinto, do que vejo e procuro.
Faz-me querer-te mais do que te quero. Multiplica por mil tudo o que sinto.
JEO
(c) Paolo Pellegrin, Magnum Photos, "Funeral Muçulmano", Xining (China), s/d
Sentam-se a meu lado. Pedem-me licença para passar por mim. Vejo-os e não os conheço. Vivem à minha frente e nunca lhes disse o que pensava, sobre coisa nenhuma. Solitários, eles e eu. Acompanhados de todos e de ninguém. Acordados para dentro. Todos e cada um de nós.
Para dentro. Sem saída.
E isto não acaba. Antes se prolonga na infinidade absoluta dos dias e das noites. Na solidão contínua e interminável das horas.
Este império do tempo é quem nos prende, nos imola e nos afasta de quem somos. Mesmo quando tudo o que pretendemos é a fuga de nós mesmos.
Mas não há fuga possível. Eis o mal maior. Porque a prisão está em todo o lado e partilha dos mesmos passos que damos ao andar, sempre à deriva. (Texto escrito em 1996)
JEO

(c) Jonas Bendiksen, Uzbequistão, Vale de Ferghana, 2002
A religião sempre foi a ferida, não a ligadura.
JEO

(c) Monica Stewart, The Letter, s/d
Escrevo-te a partir do ano passado. Tenho sujos os pés, do caminho que percorri. Feridas. Marcas várias lembram-me que vivi por esses dias.
Escrevo sem saber o teu nome. Assim prefiro. Saber-te desconhecida. Desidentificada. Feita da espuma dos mares.
Escrevo-te porque penso não voltar a ver-te. Ainda que o contrário seja o meu maior desejo. Perturbante? Porquê se foste tu quem se afastou para longe?
Continuo. Em busca de um sal mais grosso que me vede estas lágrimas de água. Percebes? Fala! Diz qualquer coisa. Não te retraias no silêncio. Não te quero ouvir calada. Não te quero.
JEO
(c) John Vink, Magnum Photos. Anlong Veng (território dos Khmer Vermelhos), 1999
O povo reunido no adro da igreja já não suporta a espera. De súbito, a vaca da Quinta irrompe pela arena improvisada. António salta, corajoso. «Eh, toiro». Os espectadores deliram com o arrojo, muito antes da primeira investida.
Desleixado, António distrai-se e uma cornada certeira fá-lo perder-se do chão. Na queda, uma das pernas solta-se do eixo dos ossos, retorcida. A massa popular cai sobre o animal e tenta socorrer o valeroso azarado.
Mas, com uma calma de anjo, António refreia os receios da turba: «Só preciso de uma chave de parafusos. É que a prótese desenroscou-se».
JEO

(c) Hiroji Kubota, Magnum Photos. Xinjiang, China,1999. "Vendedor de pão no mercado de Kashgar"
Prostrado sobre o mecanismo da tostadeira, o velho coça a cabeça. A maquineta, tão velha quanto ele, desengonçara-se de tal forma que deixara de servir para o que quer que fosse. «Raios partam esta coisa», arranca, do fundo de si.
Vagaroso, gira alguns parafusos da engrenagem, bastante complicada, mas a broeta das tostas mantém-se silenciosa. Impecavelmente estragada. «Estás em greve de velhice», diz.
A máquina, afinal, espelha a imagem de quem sempre a comandou. O homem, vesgo de cansaço, decide desligar a ficha tripla.
O enterro de ambos foi simples. Entre amigos: máquinas com avaria e velhos cansados da vida.
JEO

(c) Antoine D'Agata, Magnum Photos "Mala Noche 1998"
Preso nos arbustos, Joca faz o que pode para se livrar do peso. Fugiu do canil mas o tempo de reclusão não lhe tolheu o instinto de liberdade. A trela pesa-lhe agora como nunca. Quer libertar-se dela a todo o custo.
Enquanto se debate com balanços fortes de pescoço, uma linda cocker atravessa-se-lhe ao caminho. «Cioso», Joca debate-se contra a coleira de aço inoxidável, que se enrola cada vez mais ao tufo de arbustos.
A bichana, distraída, balança-se rente ao pêlo de Joca. Terrível. Falta-lhe o ar. Sufoca. Morre. «Béu», atira a cadelita, num ladrar de fêmea vivida.
JEO

(c) Martine Frank/Magnum Photos, s/t, 2002
Manuel invadiu a sala das máquinas onde Maria, sua mulher e esposa, enformava botas e sapatos. «Vem comigo. Vem, não digas nada» Segurou-lhe na mão esquerda e puxou-a sem magoar para fora do pavilhão. Correram, em silêncio, com o sorriso apertado, em direcção ao mundo.
As outras mulheres desviaram os olhos do serviço, mas logo voltaram à tarefa. Distraídas do amor.
O casalzinho molhou-se na chuva de Maio e deu-se abraços longos. Outros beijos. Maria olhou a cara bêbeda de felicidade do homem seu esposo, e perguntou-lhe, sabedora da resposta: «A que horas voltas ao trabalho?»
JEO
(c) Ferdinando Scianna, Brooklin, NYC, 1985/Magnum
É manhã e não te ouvi ainda qualquer passo. Por onde andas, que me atormenta o teu silêncio?
Porque não te mostras?
Serás, também tu, página em branco?
JEO