Estes sons...

Idrissa Cissoko é um rapaz como tantos outros. Poucos o ouvem ou vêem. Um filmou-o e partilhou-o com o mundo através da tecnologia do vídeo caseiro. Aquele instrumento que se vê, uma espécie de abóbora seca com uma cana espetada, soa tão simples, tão simples, de tão belo. Chama-se "Kora". Outros sons.

O outro

Um rapaz triste numa cidade tão triste como o espírito que o habita. Comungam, mesmo assim, de uma cumplicidade que se não explica. Que acontece a cada um deles - ao mesmo tempo - e se dilui, entrecruzada por fraquezas de espírito ou paredes escorridas de chuva, tão tristes como o seu cabelo rapado. Curto. Inexistente.

Existem um para o outro como estranhos. Ele calca-lhe as calçadas. Ela deixa-se possuir por esses passos divagantes, incertos por vezes. Amam-se sem saberem sequer que se conhecem absolutamente. Ambos são peças mínimas de um puzzle de que nem sequer desconfiam da existência. Habitam-se, calmamente, tão bem ou melhor que o caracol que ocupa a casca.

Se a consciência existe aqui, chama-se inconsciência. A cidade e o rapaz triste acomodam-se ao ritmo dos dias. Serão estes, porventura, quem os moldam - a ambos - mais do que o contrário.

Acordar não custa. O mais difícil é despertar para a manhã. Reconhecer-se, a si mesmos, rapaz e cidade, depois da moribunda aparência do sono de uma noite. A par, vingam-se desse estado de confusão matinal com banhos de água. A par, sempre que chove ou a torneira jorra, fiel ao propósito para que nasceu: verter esse líquido pálido e frio que, só aquecido, os corpos suportam.

O rapaz triste e a sua cidade gémea entrecruzam-se numa esquina, a caminho do emprego. Onde trabalha a cidade? Pergunta-se também o que poderá fazer um rapaz triste nesse labirinto pegajoso de ruas e avenidas.

Crescerá - porventura - a dúvida se se disser que ambos alimentam sem custo a tristeza de que padecem? De onde lhes vem essa vontade de manter intacta essa marca que a ambos confunde? Funde?

O rapaz triste não se importa com o passar dos dias. Talvez já nem seja rapaz. A cidade, essa, finge-se impedida de sentir e camufla a tristeza com neons, prédios espelhados e candeeiros esguios.

Mascaram-se um ao outro. Protegem-se num silêncio cúmplice que ambos aceitam sem esgrimir argumentos de qualquer espécie.

Mas, ao mesmo tempo, que se igualam e acompanham - numa irmandade que impressiona quem repara -, esquecem-se do que os faz, afinal, acordar a cada nova manhã: o outro. A voragem de pertencerem cada um à outra parte. De partilharem uma visceral necessidade de respirar o ar comum, sem quaisquer reservas e sem receio da partilha.

Cada um é canibal do outro, como se essa fome visceral fosse mais importante que estar vivo.

E, no entanto, esquecem-se de si.

Mais uma vez

Penso-te a uma hora matinal. Enquanto o dia começa a acontecer. Vem. Com ele toda a luz.

Os meus passos, cada um, vogam ao sabor dessa mancha de cores que acordam com o dealbar do dia. Acompanho a chegada do Sol. Faço-me Sol também. Transformo-me em luz e revigoro por isso. Fico novo, outro. Que nunca fui.

Faço-me desconhecido para mim. Para me descobrir mais uma vez.

Ou bem pelo contrário

(c) SLIFT. "Performances", in http://www.slift.blogspot.com/

Preparo-me para mais uma viagem sobre esta folha em branco. Desconheço caminhos, direcções, destinos. Vogo, apenas, à sua vontade. E avanço. Sem pausas. Sem pontos nem vírgulas. Ponto. Afago suavemente a vontade que tenho de sair deste lugar. De estar algures, numa outra página, dentro de um outro universo que não o meu, de agora. Serão desejos sonhados, apenas. Serão fases de uma lua que trago comigo, escondida, e que se manifesta a umas certas horas do dia. Como esta. A minha lua é nova. Prepara-se também para cumprir mais um ciclo do seu círculo. Voga comigo e também ela se prepara para mais uma viagem. Para mais um sonho sonhado de olhos abertos, depois da hora do almoço. Desejaria ser eu, apenas eu, sem máscaras. Sempre. Mas foge-me a força que me devia agarrar a mim mesmo. Escorre, como água, por entre as mãos, incontrolável. Não tenho culpa de ser como sou. Por mais que o não queira. Ou bem pelo contrário.

Avançando

Devagar, devagarinho. Avançando sempre. Esse é o meu futuro. E o teu.

Mesmo não pensando nisso, esse é o ritmo que levamos. Não se pára nunca.

Tanto melhor.

De onde vens, Angola?

© Paolo Pellegrin, 2006

Esta imagem, datada de Maio de 2006, é da autoria do repórter fotográfico Paolo Pellegrin. É um rapaz da Magnum Photos que foi ver o lado de trás da capital angolana. O triste lugar chama-se Bairro da Boa Vista. Irónico, não é? E, lá dentro, há gente como eu e tu.

A reportagem de Pellegrin foi motivada pela epidemia de cólera que grassa em Angola. Tomei a liberdade de traduzir as palavras do repórter. E o jornalista diz o seguinte: “Desde Fevereiro de 2006 que Angola atravessa a pior epidemia de cólera de que há memória no país, com 33 mil casos registados e mais de 1.200 mortes. Dos 16 mil casos ocorridos na capital angolana, Luanda, mais de 13 mil foram tratados pela organização Médicos Sem Fronteiras. A epidemia rapidamente atravessou as fronteiras de Luanda para entrar nas províncias. Até à data, 11 das 18 províncias têm casos relatados. O surto da doença irrompeu do Bairro da Boa Vista, um dos mais pobres bairros de lata do centro de Luanda. Ao longo de 30 anos, durante e depois de 23 anos de guerra civil, Luanda registou um aumento significativo da sua população urbana, com especial incidência nas zonas degradadas. Luanda foi atingida de forma particularmente grave por esta epidemia: mais de metade das pessoas infectadas vivem na capital e 20 por cento das mortes aconteceu aqui. Não há um único canto nesta vasta cidade que tenha sido poupado pela epidemia”.

Um dia depois nada mudou

Retiro os óculos e proponho-me, mais uma vez, avançar perante esta página em branco. Desafios infinitos me esperam. Paisagens, sons, ventos, augúrios, amores, desamores, portas abertas, montes, mares... E não sei o que dizer neste momento. Bloqueio, enclausurado sob os muros que eu próprio criei em meu redor. E que, contudo, me protegem.

Mas, afinal, o que procuro? Que palavras pretendo descobrir, que pensamentos? - O acaso?, o ocaso? Que papel desempenho eu neste teatro, erguido e encenado pela minha própria mão? Que desfecho encerrará esta peça?

Para quando o fim de todo este enredo?

para já!

(Um dia depois nada mudou...)

Bitaites

Há sempre um momento de lucidez que nos acontece. Sou, mesmo que assim não me considere, um "blogueiro". E, nestas artes, também há mandamentos. E estes merecem toda a atenção.

Um abraço para o "multibraços" Marco Santos.

Pequenas pausas

© meninazul. fevereiro 2006. ne me quite pas

Faço pequenas pausas nos meus milagres. Sou ainda jovem e procuro, sem fugir, todas as coisas que não conheço e penso escuras. Todas as pequenas formas. Os movimentos da mão. Enfim, tudo por que uma adolescência tardia se admira.

O amor não é das cidades

Winter city © Juha Lehtomäki Winter cityHeinäpää, Oulu, Finlândia, 2000

Frente aos meus olhos, prédios. De cores vagas e antigas. Desgastados. Pedem amor, estas casas. Pedem, mas ninguém lho dá. Porque o amor, por aqui, é coisa vã, caso perdido. Não existe, nem brota do betume negro das estradas ou da luz dos candeeiros de rua. Por aqui o amor fugiu. Fez-se, porventura, a outros lugares. Deu-se a outras paragens, vagabundo de outras liberdades. O amor tinha sede. Foi beber água a fontes de aldeias, a minas e nos montes. Fez-se ao mundo, sedento de outros ares. Não passou por aqui. E, se passou, fez-se invisível, para não ser reconhecido. Para que não fosse confundido com as pedras da calçada nem com as persianas corridas das janelas. O amor não é das cidades. É fruto, seiva, caule e raiz do perfume das searas. O amor é na gândara livre. Na cor fria, lúcida e transparente dos riachos. O amor veste-se dos campos, aquece e arrefece ao ritmo de chuvas e estios, não se dilui no betão cinzento dos prédios. O amor quer espaço para saltar de corpo em corpo, de beijo em beijo. Quer-se sadio, firme e desinteressado. Verdadeiro. Entre uma árvore e um arranha-céus escolho o que me dá sombra e alimento, o que reage às tempestades e se balança com o vento. O que precisa de mim para saciar a sede. Escolho o que morre de pé e me dá lume. Nenhum prédio me dá carcódias ou folhas secas ou frutos. Neles morro de fome. Prefiro o amor de uma raiz de castanheiro ao plástico fingido que ornamenta os cantos de uma casa. Nunca beijarei uma parede. Antes uma folha morta de roseira. Mil vezes uma roseira morta a um prédio altivo. Sou ainda eu quem fala aqui.

As portas que Abril abriu

A mão do pintor também encontrou a Liberdade!

Ainda (outra vez)

(c) Henry Cartier-Bresson, Magnum Photos

Porque te custa abrir os olhos? Porque te dói? Inventa emoções, inventa amores, desmultiplica-te. Faz-te outro. Reconheces-te ainda? JEO

Memórias

(c) Bruce Davidson, Hastings, 1960, "Children playing on rocks"

Lembras-te? De quando fazíamos os pés à estrada, ao pó e à lama, só para ver passar a água do ribeiro de Água d'Alto? De quando uma escádia nos magoava os dedos apenas porque queríamos experimentar a textura de um pedaço de madeira esquecido? De quando fumávamos uma palhinha à lareira, por inveja de ver o prazer na cara dos adultos que o faziam com mata-ratos? De quando nos batíamos só porque me passavas rasteiras no pelado da escola? De quando os "cóbóis" da aldeia nos destruíram a cabana de "índios" que contruímos com varas de mimosa? Ali, junto ao campo de futebol? De quando íamos à lenha?, às pinhas? Lembras-te? De que te lembras, afinal? JEO

Parabéns

"Agora que já sinto a gravidade dos quarenta, espero que nada se me descaia demais e que o charme e a ternura me amparem" MCMO

A dois

Desfazem-se num beijo os namorados

entrelaçam-se as mãos constantemente

conversam em sussuro amadamente

enquanto um velho ressona do seu lado.

~

Entreolham-se e vibram com vontade

murmurando amores docemente

e se cada olhar é tido como urgente

mais urgente ainda é a ansiedade.

~

Ela afaga-lhe os dedos sem saber

ele recebe carícias mansamente

ela sorri-lhe com olhos de serpente

ele toma-os como toques de mulher.

~

Cada um é objecto de um desejo

que se pediu tão sofregamente

quanto a sede que se bebe de repente

por um copo sobre o qual se dá um beijo.

~

Desconfiam dos olhares, do sorriso

que outros lançam com tez impaciente

e de pronto se escondem por vergonha ardente

em abraços que lhes tolhem o desejo.

JEO

Um ano

(c) Peter Goldbeck "Angel cloud with rainbow", 2001

Faz por estes dias um ano que me lancei na alimentação deste blog. Não fiz por alardear a sua existência. Por via disso, talvez, contam-se por escassíssimas dezenas os comentários que nele foram feitos por terceiros. Mas isto não é sintoma de nada. A falta de participação pode mesmo decorrer - e nisso acredito - do já incontável número de blogs que entretanto nasceram, mais vigorosos, activos e apelativos que o meu. Deixo aqui um abraço a todos quantos, alguma vez, participaram no Fogo Fátuo, comentando o que foi sendo escrito. Da minha parte, regressarei ao suporte de papel. Se alguém sentir a perda, que me escreva para casa.

P.S. À MagnumPhotos, onde fui beber a maioria das imagens que lancei às chamas deste Fogo, o meu agradecimento.

Abraços

JEO

Sem mais

(c) Alex Majoli, Magnum Photos, in "Grécia, Leros, Mental Hospital", 1994

A minha posse é não ter nada. O que tenho é o que sou e o que quero ser. Eu e mais ninguém. E esta cor ninguém a quer e ninguém a dá. Por isso, por tudo isso, prefiro as palavras sem cor, que ninguém as conheça, sequer o nome. Nem o corpo, as formas ou a tonalidade do cabelo. Prefiro, sem mais, que o espaço ocupado das coisas tenha a cor que eu quiser delas e, querendo-as assim, e aceitando-as, que eu seja o que elas desejarem de mim. Sem mais.

(Texto escrito em 1989)

JEO

Mas, afinal...

© Josef Koudelka/Magnum Photos, in "Gipsies", Jarabina, Slovakia, 1963

Mas, afinal, o que me peço? Para que me multiplico, assim, sem substância? Porque me dou a estes pensamentos?

JEO

É para amanhã

© Bruno Barbey/Magnum Photos "On your bike", s/d

Sobra-me tempo. Falta-me o espaço. Ou será que se invertem os factores? O que me falta? Que se vaze a plenitude ou que se preencha o vazio? Oh, demasiadas, terrenas, interrogações!

JEO

Destinos

(c) Joseph Koudelka, Irlanda, 1978, Magnum Photos

Balança o teu corpo em ondas de seara

para que tudo volte

ao que já era.

JEO

Desesperadamente

Fotocomposición de Alejandro Mascarúa. Foto de Stephan Lupino

(c) Revista "Etcétera" nº 400, Espanha, s/d

São muitos os dias, senhor. São mais numerosas ainda as horas, os minutos. E eu continuo o meu caminho. Tortuoso, em dias cinzentos, menos mau quando acordo e me faz sol na cara. Pesam-me os próprios dedos. Desfaleço.

Toquem a rebate. Porque urge salvar alguém. E esse alguém sou eu.

De que me serve a sensualidade? As minhas pernas? Os meus maneios, as loções, todo o meu jeito? Para ser quem sou, assim, desesperadamente?

JEO

A água és tu

(c) www.kaibab.org

O que tu vês nas pupilas dos meus olhos, quando estão vermelhos, são sangue coalhado, concentrado, apertado. Mais espesso que o normal. Nada mais. Para lá desse sangue há um leito de rio onde o rio não está. Porque a água secou.

A água és tu.

JEO

(Texto escrito em Julho de 2001)