Mas não é hoje o quê?

Não é hoje. Nem talvez nunca. Mas não é hoje o quê? Que decisão tenho de tomar? O que tenho de fazer? Quais são as minhas próprias directivas? Sentir o vento? Dar uma volta? Ter uma casa? Será? Será esse o meu desiderato?

Não, não é isso que quero para mim. Quero apenas chegar a um sítio qualquer onde me sente e olhe e mansamente diga, de mim para mim, 'Boa tarde'.

Sem sequer olhar

Eia, eia, eia! Por aqui de novo, subindo escadas, subindo muros, de salto em salto. Já é de noite quando me aproximo de lugar algum. Ouvem-se zumbidos de toda a ordem. Luzes ao fundo, luzes, luzes numa cidade que já dorme, atenta e fiel a si própria. Imaginada? Não. Bem real. É nesta cidade que durmo. Acolheu-me e aqui estou. Um beco, uma porta de entrada, um hall, uma escada, duas mulheres que passam. Uma senhora à janela, mãos postas, como se toda a paisagem fosse o seu altar. Cabelo branco. A cidade é acariciada por uma brisa que faz cantar os plátanos. Passam dois carros. Que estranha noite. Um foco ténue ilumina um chafariz e eu passo por ele sem sequer olhar. Sem sequer olhar. Tenho pressa. Tenho alguma pressa de chegar a um lugar muito meu. A um lugar tão velho como eu próprio. Porque já estou onde estou. E se já estou onde estou, porque me dirijo para o lugar para onde vou? Porquê? Para onde? Para alguma encruzilhada, sinalizada a branco e azul? Sigo em frente. Sigo em frente neste passeio estreito e passo a mão, como uma carícia, por uma parede pintada a vermelho. Antiga. Era uma quinta esta quinta. A Quinta da Luz. Para onde vou? Nunca saberei. Esse será para sempre, e sempre, o meu mistério. O meu mistério. Também tenho direitos. Se ninguém criar um mistério para mim, tenho de ser eu a criá-lo. Adeus. Até já.

Dez da noite

São as dez da noite. Estou a chegar a casa. Sou eu quem dá, passo após passo, o rumo a este caminho tantas vezes repetido. Rumo a mim mesmo. Rumo a lugar algum. E aqui estou eu, penando por mais um passo, à procura de alguma coisa que não sei o que seja, de uma maresia, de um pedaço de ar que me afague a testa. De uma gota de suor. Silêncio. Quem serei quando, prostrado sobre mim mesmo, amado, odiado, afastado, ostracisado... quem serei nesses momentos? Por quem me tomo? Quantos sou, quantos fui e quantos serei? Por que nome me poderei identificar? Por que nome me identificarei amanhã quando te aproximares e disseres ‘bom dia, olha, está a chover’. Quem serei eu nesses momentos? Estou ofegante, apertado aqui nesta avenida. Passa um autocarro, um táxi e uma viatura particular, como soy dizer-se no calão policial que todos os dias me entra pelas orelhas e me sai pela ponta dos dedos. Escrevo notícias, dizem. Escrevo notícias. Estou quase a chegar a casa. E perco-me de mim mesmo no meio de todas as palavras. No meio de toda esta escuridão que me afoga, que me faz viver, que me alimenta. Eu sou esta falta de luz, este bater compassado do coração, esta chuva que cai às dez, este passo perdido que dou todos os dias no mesmo sentido, esta lacuna. Às vezes penso que o melhor seria vogar, vogar e não andar passo a passo, pouco a pouco, nada a nada. Uma miragem, um pequeno fôlego, um suspiro. Mais um passo. Estou quase em casa. Estou quase em mim. Quem serei quando entrar? Quem serei quando aquela chave rodar para a esquerda duas vezes e a porta castanha se entreabrir e no escuro daquela casa? Vou proteger-me, no escuro daquela concha. Vou encontrar-me a mim e a mim mesmo. Adeus e até amanhã.

Este dia é teu e meu

Marcha. Avança. Move-te. Partilha. Sofre. Canta. Vive. Vive livre, Liberdade!

De tudo o mais faça-se pó

Uma luz morna irrompe sobre as costas da floresta. Um ganir de cão sobressalta pombas esquecidas de deus. Miserável crime. O abandono. Respirar nessa hora é cumprir o mais puro egoísmo. É ser-se deus também. Matem-se as pombas. De que mais nos socorremos quando o transe, a angústia e o medo nos agrilhoam? À morte. À morte dos outros. Massacre! Desfaçam-se todas as pedras; amontoem-se os escombros e juntem-se-lhe os ratos mortos. Restos. Despejem-se em qualquer lugar os despojos dessa fúria incontida, moribunda. Deus há-de ser testemunha dessa festa. De tudo o mais faça-se pó.

(Texto escrito em Março de 2003)

Apetece-me escrever-te a cada vez que te penso. Por todo o lado, onde quer que me encontre, desejaria escrevinhar para ti, da mesma maneira que desejo estar no lugar para onde quero ir. A rua, principalmente, é onde mais me apetece falar-te por palavras escritas. Na maior parte das vezes não trago caneta, nem papel, nem spray de cores com que pudesse manchar paredes. Para ti.

Interrogo-me se o teu silêncio é esquecimento ou desamor. Ainda espero, acredita, que me digas alguma coisa, mesmo nada, mas que separes pelo menos por mais uma vez, esses teus dois fios de lábio por onde te saem as mentiras que me contas. Conta-me, vá lá, mais uma das tuas histórias de cavalos. Conta-me esses teus olhos de chinesa que nunca gostaste de reconhecer. Caso contrário, contarte-ei eu uma das minhas.

Será que tenho alguma?

(Lisboa, Dezembro de 1996. Foto: (c) Pedro Salgado, Lx, s/d)

Um beijo e um abraço

Passam num passo corrido. Passeiam como se cada passo soasse a mais um pedaço de texto redigido. Vogam, penam, arrastando o baço, com rasos pés de barro. Perdem-se, encolhidos no corpo passado a fino traço. Pelo tempo. Sobrevivem. Negoceiam e desfazem-se no espaço. Calcorreiam mundos, atacados de um cansaço flácido e baço. Regurgitado e mal amado a cada dia que passe. Reúnem-se de olhos vendados. Dão-se as mãos inchadas e um abraço. Pedem trocos a troco de um pedaço de mundo que nunca foi de quem lhos dá, como um laço que se ata num presente. Passado com factura. Um beijo e um abraço.

Portanto...

É recorrente este hábito de voltar espaçadamente a um lugar. Este é um deles. Os motivos que estão por detrás desse impulso? Desconheço-os. Há coisas, espaços e pessoas de que(m) se gosta sem explicações. E este pequeno mundo que o Fogo-Fátuo representa (tendo acoplados outros três mini-blogs - Alberto Caeiro Revisited, Noite e Solilóquio) é uma delas. Comparo-o a um amigo que não se vê há muito tempo, mas que se sabe, com uma certeza intuida, que está lá - igual a si próprio e sendo o mesmo amigo de sempre. Eis-me, portanto, aqui, mais uma vez. Já noutros posts regressei. E regressarei quantas vezes for necessário. Sempre e mais uma vez. Portanto...

Pingos

Adivinho uma noite suave à minha frente. Chove a pouco e pouco. Outono. Folhas de plátano começam a fazer-se ao mundo. Lançam-se a um chão de terra e pedras. Adivinho uma suave noite aqui por perto. O Outono sou eu quando assim me sinto. Caio sobre mim, amarelecido, pálido, seco. A chuva humedece-me os cabelos. Banha-me inteiro sem perguntar porquê. Deixo, sem resmungar, que ela me constipe. Afinal, o Outono sou eu. Ou será que é outro que ainda não sei?

Sempre o regresso

Nunca se sai. Nunca se abandona. Fica-se sempre. E o tempo avança, avança, até ficar (quase) parado. É o que parece a alguns. Mas não a todos. É o que não acontece, pelo menos, comigo. Quem me quiser seguir, que me siga, disse alguém. Eu por aqui continuo. Mas não parado.
Andy Mckee "Há mais numa viola do que você imagina". Parece um spot publicitário, mas aqui não há mentira nem sedução. O que parece, de facto, é ser quase mentira que este senhor possa "roubar" àquele instrumento o som que aqui se pode ouvir. Fiquei siderado. Dizer fabuloso é pouco. Genial.

Dito

O que aqui me traz são memórias. O que daqui me tira serão esperanças. Recordar. Esperar. Verbos apenas?

E se de repente?

(c) Bruno Barbey "Portugal", in Out of Stock 1993

Tudo nos pode acontecer de repente. Esperar e, de repente, ver. Avançar e, de repente, ter. Chorar, e de repente, calar. E se de repente tudo te acontecer? E, a propósito de nada, apeteceu-me escrever o que alguém que anda pelo Inferno com uma cerveja na mão disse em tempos:

"Há qualquer coisa de estranho em tudo o que é belo" - J. A. Rimbaud.

De amar

Ata-me a ti, se fores corda. Prende-me, se fores fechadura ou cadeado. Mantém-me contigo até que se desaperte o nó que nos tolhe os movimentos. De afagar, de beijar, de morder, sorrir, falar, contar, andar, olhar, amar. De amar.

Estes sons...

Idrissa Cissoko é um rapaz como tantos outros. Poucos o ouvem ou vêem. Um filmou-o e partilhou-o com o mundo através da tecnologia do vídeo caseiro. Aquele instrumento que se vê, uma espécie de abóbora seca com uma cana espetada, soa tão simples, tão simples, de tão belo. Chama-se "Kora". Outros sons.

O outro

Um rapaz triste numa cidade tão triste como o espírito que o habita. Comungam, mesmo assim, de uma cumplicidade que se não explica. Que acontece a cada um deles - ao mesmo tempo - e se dilui, entrecruzada por fraquezas de espírito ou paredes escorridas de chuva, tão tristes como o seu cabelo rapado. Curto. Inexistente.

Existem um para o outro como estranhos. Ele calca-lhe as calçadas. Ela deixa-se possuir por esses passos divagantes, incertos por vezes. Amam-se sem saberem sequer que se conhecem absolutamente. Ambos são peças mínimas de um puzzle de que nem sequer desconfiam da existência. Habitam-se, calmamente, tão bem ou melhor que o caracol que ocupa a casca.

Se a consciência existe aqui, chama-se inconsciência. A cidade e o rapaz triste acomodam-se ao ritmo dos dias. Serão estes, porventura, quem os moldam - a ambos - mais do que o contrário.

Acordar não custa. O mais difícil é despertar para a manhã. Reconhecer-se, a si mesmos, rapaz e cidade, depois da moribunda aparência do sono de uma noite. A par, vingam-se desse estado de confusão matinal com banhos de água. A par, sempre que chove ou a torneira jorra, fiel ao propósito para que nasceu: verter esse líquido pálido e frio que, só aquecido, os corpos suportam.

O rapaz triste e a sua cidade gémea entrecruzam-se numa esquina, a caminho do emprego. Onde trabalha a cidade? Pergunta-se também o que poderá fazer um rapaz triste nesse labirinto pegajoso de ruas e avenidas.

Crescerá - porventura - a dúvida se se disser que ambos alimentam sem custo a tristeza de que padecem? De onde lhes vem essa vontade de manter intacta essa marca que a ambos confunde? Funde?

O rapaz triste não se importa com o passar dos dias. Talvez já nem seja rapaz. A cidade, essa, finge-se impedida de sentir e camufla a tristeza com neons, prédios espelhados e candeeiros esguios.

Mascaram-se um ao outro. Protegem-se num silêncio cúmplice que ambos aceitam sem esgrimir argumentos de qualquer espécie.

Mas, ao mesmo tempo, que se igualam e acompanham - numa irmandade que impressiona quem repara -, esquecem-se do que os faz, afinal, acordar a cada nova manhã: o outro. A voragem de pertencerem cada um à outra parte. De partilharem uma visceral necessidade de respirar o ar comum, sem quaisquer reservas e sem receio da partilha.

Cada um é canibal do outro, como se essa fome visceral fosse mais importante que estar vivo.

E, no entanto, esquecem-se de si.

Mais uma vez

Penso-te a uma hora matinal. Enquanto o dia começa a acontecer. Vem. Com ele toda a luz.

Os meus passos, cada um, vogam ao sabor dessa mancha de cores que acordam com o dealbar do dia. Acompanho a chegada do Sol. Faço-me Sol também. Transformo-me em luz e revigoro por isso. Fico novo, outro. Que nunca fui.

Faço-me desconhecido para mim. Para me descobrir mais uma vez.

Ou bem pelo contrário

(c) SLIFT. "Performances", in http://www.slift.blogspot.com/

Preparo-me para mais uma viagem sobre esta folha em branco. Desconheço caminhos, direcções, destinos. Vogo, apenas, à sua vontade. E avanço. Sem pausas. Sem pontos nem vírgulas. Ponto. Afago suavemente a vontade que tenho de sair deste lugar. De estar algures, numa outra página, dentro de um outro universo que não o meu, de agora. Serão desejos sonhados, apenas. Serão fases de uma lua que trago comigo, escondida, e que se manifesta a umas certas horas do dia. Como esta. A minha lua é nova. Prepara-se também para cumprir mais um ciclo do seu círculo. Voga comigo e também ela se prepara para mais uma viagem. Para mais um sonho sonhado de olhos abertos, depois da hora do almoço. Desejaria ser eu, apenas eu, sem máscaras. Sempre. Mas foge-me a força que me devia agarrar a mim mesmo. Escorre, como água, por entre as mãos, incontrolável. Não tenho culpa de ser como sou. Por mais que o não queira. Ou bem pelo contrário.

Avançando

Devagar, devagarinho. Avançando sempre. Esse é o meu futuro. E o teu.

Mesmo não pensando nisso, esse é o ritmo que levamos. Não se pára nunca.

Tanto melhor.

De onde vens, Angola?

© Paolo Pellegrin, 2006

Esta imagem, datada de Maio de 2006, é da autoria do repórter fotográfico Paolo Pellegrin. É um rapaz da Magnum Photos que foi ver o lado de trás da capital angolana. O triste lugar chama-se Bairro da Boa Vista. Irónico, não é? E, lá dentro, há gente como eu e tu.

A reportagem de Pellegrin foi motivada pela epidemia de cólera que grassa em Angola. Tomei a liberdade de traduzir as palavras do repórter. E o jornalista diz o seguinte: “Desde Fevereiro de 2006 que Angola atravessa a pior epidemia de cólera de que há memória no país, com 33 mil casos registados e mais de 1.200 mortes. Dos 16 mil casos ocorridos na capital angolana, Luanda, mais de 13 mil foram tratados pela organização Médicos Sem Fronteiras. A epidemia rapidamente atravessou as fronteiras de Luanda para entrar nas províncias. Até à data, 11 das 18 províncias têm casos relatados. O surto da doença irrompeu do Bairro da Boa Vista, um dos mais pobres bairros de lata do centro de Luanda. Ao longo de 30 anos, durante e depois de 23 anos de guerra civil, Luanda registou um aumento significativo da sua população urbana, com especial incidência nas zonas degradadas. Luanda foi atingida de forma particularmente grave por esta epidemia: mais de metade das pessoas infectadas vivem na capital e 20 por cento das mortes aconteceu aqui. Não há um único canto nesta vasta cidade que tenha sido poupado pela epidemia”.

Um dia depois nada mudou

Retiro os óculos e proponho-me, mais uma vez, avançar perante esta página em branco. Desafios infinitos me esperam. Paisagens, sons, ventos, augúrios, amores, desamores, portas abertas, montes, mares... E não sei o que dizer neste momento. Bloqueio, enclausurado sob os muros que eu próprio criei em meu redor. E que, contudo, me protegem.

Mas, afinal, o que procuro? Que palavras pretendo descobrir, que pensamentos? - O acaso?, o ocaso? Que papel desempenho eu neste teatro, erguido e encenado pela minha própria mão? Que desfecho encerrará esta peça?

Para quando o fim de todo este enredo?

para já!

(Um dia depois nada mudou...)