Alcoolemia-consciência
Estava escrito
Estava, estava. Que eu vi, com estes que a terra há-de comer. Andava eu a remexer nuns livros, em casa, e dei com um pequeno farrapo de papel rabiscado. Tinha umas palavras escritas por estas minhas mãos. Pronto. Fui eu. Ok. Tinham sido redigidas anos, muitos anos antes. E gostei, tanto que me espantei, dessa viagem de instantes.
Foi apenas um momento. Um breve contacto com a minha própria memória. Mas suficiente para que a minha calma desaparecesse, se evaporasse e se revolteasse, em turbilhão, sobre a minha cabeça.
Depois passou. Voltei a mim. E aqui estou. Prometo transcrever aqui essas palavras. Prometo.
Eia!
Para onde fomos?
Mas não é hoje o quê?
Não é hoje. Nem talvez nunca. Mas não é hoje o quê? Que decisão tenho de tomar? O que tenho de fazer? Quais são as minhas próprias directivas? Sentir o vento? Dar uma volta? Ter uma casa? Será? Será esse o meu desiderato?
Não, não é isso que quero para mim. Quero apenas chegar a um sítio qualquer onde me sente e olhe e mansamente diga, de mim para mim, 'Boa tarde'.
Sem sequer olhar
Dez da noite
De tudo o mais faça-se pó
Uma luz morna irrompe sobre as costas da floresta. Um ganir de cão sobressalta pombas esquecidas de deus. Miserável crime. O abandono. Respirar nessa hora é cumprir o mais puro egoísmo. É ser-se deus também. Matem-se as pombas. De que mais nos socorremos quando o transe, a angústia e o medo nos agrilhoam? À morte. À morte dos outros. Massacre! Desfaçam-se todas as pedras; amontoem-se os escombros e juntem-se-lhe os ratos mortos. Restos. Despejem-se em qualquer lugar os despojos dessa fúria incontida, moribunda. Deus há-de ser testemunha dessa festa. De tudo o mais faça-se pó.
(Texto escrito em Março de 2003)
Apetece-me escrever-te a cada vez que te penso. Por todo o lado, onde quer que me encontre, desejaria escrevinhar para ti, da mesma maneira que desejo estar no lugar para onde quero ir. A rua, principalmente, é onde mais me apetece falar-te por palavras escritas. Na maior parte das vezes não trago caneta, nem papel, nem spray de cores com que pudesse manchar paredes. Para ti.
Interrogo-me se o teu silêncio é esquecimento ou desamor. Ainda espero, acredita, que me digas alguma coisa, mesmo nada, mas que separes pelo menos por mais uma vez, esses teus dois fios de lábio por onde te saem as mentiras que me contas. Conta-me, vá lá, mais uma das tuas histórias de cavalos. Conta-me esses teus olhos de chinesa que nunca gostaste de reconhecer. Caso contrário, contarte-ei eu uma das minhas.
Será que tenho alguma?
(Lisboa, Dezembro de 1996. Foto: (c) Pedro Salgado, Lx, s/d)
Um beijo e um abraço
Portanto...
Pingos
Sempre o regresso
Dito
E se de repente?
(c) Bruno Barbey "Portugal", in Out of Stock 1993 Tudo nos pode acontecer de repente. Esperar e, de repente, ver. Avançar e, de repente, ter. Chorar, e de repente, calar. E se de repente tudo te acontecer? E, a propósito de nada, apeteceu-me escrever o que alguém que anda pelo Inferno com uma cerveja na mão disse em tempos:
"Há qualquer coisa de estranho em tudo o que é belo" - J. A. Rimbaud.
De amar
Sem pressas
Estes sons...
O outro
Um rapaz triste numa cidade tão triste como o espírito que o habita. Comungam, mesmo assim, de uma cumplicidade que se não explica. Que acontece a cada um deles - ao mesmo tempo - e se dilui, entrecruzada por fraquezas de espírito ou paredes escorridas de chuva, tão tristes como o seu cabelo rapado. Curto. Inexistente.
Existem um para o outro como estranhos. Ele calca-lhe as calçadas. Ela deixa-se possuir por esses passos divagantes, incertos por vezes. Amam-se sem saberem sequer que se conhecem absolutamente. Ambos são peças mínimas de um puzzle de que nem sequer desconfiam da existência. Habitam-se, calmamente, tão bem ou melhor que o caracol que ocupa a casca.
Se a consciência existe aqui, chama-se inconsciência. A cidade e o rapaz triste acomodam-se ao ritmo dos dias. Serão estes, porventura, quem os moldam - a ambos - mais do que o contrário.
Acordar não custa. O mais difícil é despertar para a manhã. Reconhecer-se, a si mesmos, rapaz e cidade, depois da moribunda aparência do sono de uma noite. A par, vingam-se desse estado de confusão matinal com banhos de água. A par, sempre que chove ou a torneira jorra, fiel ao propósito para que nasceu: verter esse líquido pálido e frio que, só aquecido, os corpos suportam.
O rapaz triste e a sua cidade gémea entrecruzam-se numa esquina, a caminho do emprego. Onde trabalha a cidade? Pergunta-se também o que poderá fazer um rapaz triste nesse labirinto pegajoso de ruas e avenidas.
Crescerá - porventura - a dúvida se se disser que ambos alimentam sem custo a tristeza de que padecem? De onde lhes vem essa vontade de manter intacta essa marca que a ambos confunde? Funde?
O rapaz triste não se importa com o passar dos dias. Talvez já nem seja rapaz. A cidade, essa, finge-se impedida de sentir e camufla a tristeza com neons, prédios espelhados e candeeiros esguios.
Mascaram-se um ao outro. Protegem-se num silêncio cúmplice que ambos aceitam sem esgrimir argumentos de qualquer espécie.
Mas, ao mesmo tempo, que se igualam e acompanham - numa irmandade que impressiona quem repara -, esquecem-se do que os faz, afinal, acordar a cada nova manhã: o outro. A voragem de pertencerem cada um à outra parte. De partilharem uma visceral necessidade de respirar o ar comum, sem quaisquer reservas e sem receio da partilha.
Cada um é canibal do outro, como se essa fome visceral fosse mais importante que estar vivo.
E, no entanto, esquecem-se de si.
Mais uma vez
Penso-te a uma hora matinal. Enquanto o dia começa a acontecer. Vem. Com ele toda a luz. Os meus passos, cada um, vogam ao sabor dessa mancha de cores que acordam com o dealbar do dia. Acompanho a chegada do Sol. Faço-me Sol também. Transformo-me em luz e revigoro por isso. Fico novo, outro. Que nunca fui.
Faço-me desconhecido para mim. Para me descobrir mais uma vez.
Ou bem pelo contrário
(c) SLIFT. "Performances", in http://www.slift.blogspot.com/
Preparo-me para mais uma viagem sobre esta folha em branco. Desconheço caminhos, direcções, destinos. Vogo, apenas, à sua vontade. E avanço. Sem pausas. Sem pontos nem vírgulas. Ponto. Afago suavemente a vontade que tenho de sair deste lugar. De estar algures, numa outra página, dentro de um outro universo que não o meu, de agora. Serão desejos sonhados, apenas. Serão fases de uma lua que trago comigo, escondida, e que se manifesta a umas certas horas do dia. Como esta. A minha lua é nova. Prepara-se também para cumprir mais um ciclo do seu círculo. Voga comigo e também ela se prepara para mais uma viagem. Para mais um sonho sonhado de olhos abertos, depois da hora do almoço. Desejaria ser eu, apenas eu, sem máscaras. Sempre. Mas foge-me a força que me devia agarrar a mim mesmo. Escorre, como água, por entre as mãos, incontrolável. Não tenho culpa de ser como sou. Por mais que o não queira. Ou bem pelo contrário.
Três meses
12 semanas
120 dias
2880 horas.
Estive sempre aqui.
Alguém me viu?
