Ficou satisfeito, não é verdade?
Lindo, lindo era seres azul e eu também
Não ficámos presos à lágrima de não sermos nós quem saiu dali? Tivemos medo. Lembras-te? Aquilo não éramos nós. Éramos outros. Um cajado, a telefonia, duas cabras. E nós. Ali. Assim, sentados a ver. E o futuro a despedir-se de nós, como a gozar, a fazer pouco. Queres levantar-te? Queres mexer-te? Vens? Só às 17 e 23? Caraças, pá. Não me faças perder esta vontade de sair. De me ir embora. De crescer. É tão boa. A consciência da nossa vontade. Mas dói, parece-me, aqui assim, no meio das costas. Dói um bocadito, mas não é nada. Não há-de ser nada. Vais ver.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira. Baixa-Chiado, Lisboa, Abril 2008
Ó Lídia, dá-me aí dois euros e quarenta
Sozinhos, assim como somos
Verde alface
O extremo duche da alma?
O absurdo. Absurdo O.
São essas as regras
Alcoolemia-consciência
Estava escrito
Estava, estava. Que eu vi, com estes que a terra há-de comer. Andava eu a remexer nuns livros, em casa, e dei com um pequeno farrapo de papel rabiscado. Tinha umas palavras escritas por estas minhas mãos. Pronto. Fui eu. Ok. Tinham sido redigidas anos, muitos anos antes. E gostei, tanto que me espantei, dessa viagem de instantes.
Foi apenas um momento. Um breve contacto com a minha própria memória. Mas suficiente para que a minha calma desaparecesse, se evaporasse e se revolteasse, em turbilhão, sobre a minha cabeça.
Depois passou. Voltei a mim. E aqui estou. Prometo transcrever aqui essas palavras. Prometo.
Eia!
Para onde fomos?
Mas não é hoje o quê?
Não é hoje. Nem talvez nunca. Mas não é hoje o quê? Que decisão tenho de tomar? O que tenho de fazer? Quais são as minhas próprias directivas? Sentir o vento? Dar uma volta? Ter uma casa? Será? Será esse o meu desiderato?
Não, não é isso que quero para mim. Quero apenas chegar a um sítio qualquer onde me sente e olhe e mansamente diga, de mim para mim, 'Boa tarde'.
Sem sequer olhar
Dez da noite
De tudo o mais faça-se pó
Uma luz morna irrompe sobre as costas da floresta. Um ganir de cão sobressalta pombas esquecidas de deus. Miserável crime. O abandono. Respirar nessa hora é cumprir o mais puro egoísmo. É ser-se deus também. Matem-se as pombas. De que mais nos socorremos quando o transe, a angústia e o medo nos agrilhoam? À morte. À morte dos outros. Massacre! Desfaçam-se todas as pedras; amontoem-se os escombros e juntem-se-lhe os ratos mortos. Restos. Despejem-se em qualquer lugar os despojos dessa fúria incontida, moribunda. Deus há-de ser testemunha dessa festa. De tudo o mais faça-se pó.
(Texto escrito em Março de 2003)
Apetece-me escrever-te a cada vez que te penso. Por todo o lado, onde quer que me encontre, desejaria escrevinhar para ti, da mesma maneira que desejo estar no lugar para onde quero ir. A rua, principalmente, é onde mais me apetece falar-te por palavras escritas. Na maior parte das vezes não trago caneta, nem papel, nem spray de cores com que pudesse manchar paredes. Para ti.
Interrogo-me se o teu silêncio é esquecimento ou desamor. Ainda espero, acredita, que me digas alguma coisa, mesmo nada, mas que separes pelo menos por mais uma vez, esses teus dois fios de lábio por onde te saem as mentiras que me contas. Conta-me, vá lá, mais uma das tuas histórias de cavalos. Conta-me esses teus olhos de chinesa que nunca gostaste de reconhecer. Caso contrário, contarte-ei eu uma das minhas.
Será que tenho alguma?
(Lisboa, Dezembro de 1996. Foto: (c) Pedro Salgado, Lx, s/d)
Um beijo e um abraço
Portanto...
Pingos
Sempre o regresso
Dito
E se de repente?
(c) Bruno Barbey "Portugal", in Out of Stock 1993 Tudo nos pode acontecer de repente. Esperar e, de repente, ver. Avançar e, de repente, ter. Chorar, e de repente, calar. E se de repente tudo te acontecer? E, a propósito de nada, apeteceu-me escrever o que alguém que anda pelo Inferno com uma cerveja na mão disse em tempos:
"Há qualquer coisa de estranho em tudo o que é belo" - J. A. Rimbaud.
Três meses
12 semanas
120 dias
2880 horas.
Estive sempre aqui.
Alguém me viu?
