Fernando Pessoa, 120 anos a 13 de Junho

Acaba-se-me a paciência. Regresso. Que horas são, afinal? 17 e 23? Outra vez? Ainda? Despejo mundos sobre a paisagem clara. E já não volto. Dizem-me. Vou apanhar-me. E corro. E não me canso. Que não me faz falta o cansaço. Não o comprarei em saldo. Ou em época baixa. Deixem-me correr, porra. Deixem-me respirar. Quero ser peixe. E respirar. Assim, de boquinha a soprar baixinho. Como que a dar um beijo no vazio. Constante. No vácuo imenso do fundo do tanque do aquário. Aproxima-se de mim uma dúvida. E esfrego as mãos. E respiro sem querer. Olho para o lado, fitando a janela. Mas sem olhar. Sinto aqui uma picada na barriga da perna. Aguarde, por favor. Vou ter de coçar isto. Que não passa. Chiça. Que não passa. Bom. Próóximôôô.

Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Velho BUS, Miraflores, Maio 2008

O furacão da dúvida

A marca circular sobre o corpo. O caminho por onde segue. O rasto. O sémen deixado sem dó pelo caminho. A semente inacabada. Porque essa dúvida se mantém. Permanente. Perene. Mas circunstancial. Ácida e volúvel, mas mansa e tempestuosa. O furacão da dúvida. A tempestade.

Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Avenida dos Combatentes, Lisboa, Maio 2008

Ficou satisfeito, não é verdade?

Tenho aqui um macaco... que... isto... ai. Fóige! Estava preso ao pêlo. E veio o pêlo com ele. Tanto melhor. É menos confusão na salinha do nariz. Bem. E a propósito de nada, venho comunicar a Vossas Excelências que a cor da noite acabou de esmorecer. Misturou-se com o seu próprio corpo. E anoiteceu. Este foi um fenómeno que se verificou apenas hoje. Não mais se verá. Foi caso raro. Mas ficou gravado. Quem tiver perdido a ocasião... PODE RECORDAR TUDO COM O DVD DE APENAS 12 EUROS, SEM CUSTOS NEM PORTES DE ENVIO. Stock limitado às palavras que você consegue ler nesta mental e colectiva falcatrua que o convence a guardar para nada o nada que já comprou. Bem. Adiante. Você já pagou. Ficou satisfeito. Não é verdade? E que se lixe a teoria de Kant, que não tinha tempo nem para tomar banho, de tanto escrever. Não é verdade? Ai não? Ouvi dizer...
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Quinta da Luz, Lisboa, Abril 2008

Lindo, lindo era seres azul e eu também

Não ficámos presos à lágrima de não sermos nós quem saiu dali? Tivemos medo. Lembras-te? Aquilo não éramos nós. Éramos outros. Um cajado, a telefonia, duas cabras. E nós. Ali. Assim, sentados a ver. E o futuro a despedir-se de nós, como a gozar, a fazer pouco. Queres levantar-te? Queres mexer-te? Vens? Só às 17 e 23? Caraças, pá. Não me faças perder esta vontade de sair. De me ir embora. De crescer. É tão boa. A consciência da nossa vontade. Mas dói, parece-me, aqui assim, no meio das costas. Dói um bocadito, mas não é nada. Não há-de ser nada. Vais ver.

Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira. Baixa-Chiado, Lisboa, Abril 2008

Ó Lídia, dá-me aí dois euros e quarenta

Dói-me a ponta do indicador direito. E não lhe ligo. Negligencio uma parte de mim. Não a penso. Apenas sinto. De vez em quando. É como se fosse uma ausência sempre presente. Uma pedra no fundo da bota, que teima em não se mexer dali. Filha da mãe. Rai´s parta a merda da pedra. E vai-se a consciência nestas coisas. Saltimbanca como se disso dependesse o nascer do sol. E não se faz mais nada que valha. Não. Não se olha para dentro. Não se lê. Nem se respira. Deixa-se o tempo fugir. A qualquer hora. Sem sentir falta. Para quê? Consciência dói, minino. Custa supórtá. É indjigésta e sufócântxi. Ce n´est pas vrai? Compra-se a preço de saldo de vez em quando. Mas aquilo gasta-se muito e perde o sabor também. Ai. Que se aquilo não tivesse um cheirinho ia à loja do lado e comprava trinta daqueles redondinhos. Dos outros. Tá a ver? Daqueles que parece que fazem crescer borbulhas a algumas pessoas. Mas a mim não. Ó Lídia, querida, dá aí dois euros e quarenta, sim, desses aí de baixo.
Foto: (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Lisboa, Abril, 2008

Sozinhos, assim como somos

Lindo. Lindo. Muito bem. Olha, é isso mesmo. Agora sai daí. Deixa-me entrar na banheira. É minha a vez. Mas que prazer inominável é esse? Mas que é da vergonha. Do pudor? Da carroça e da criada? Que é desse tempo. Desse nevoeiro de consciências morto jovem, graças a deus. Sebastião come tudo, tudo. Tudo. E quem o espera? Ai é verdade. Ninguém. E todos, pronto. Não nos demos autorização de ter saudades? Ou de não carecer de um fantasma ao qual chamemos pai? À bússola que nos inventámos? Portugueses! Ao nosso encontro? A sermos sozinhos, assim como somos. E mai nada? Lindo, lindo era seres azul e eu também. E andarmos por aí sem nos mexermos. E soprarmos nas orelhas dos outros sem sermos notados. E matar! E matar qualquer coisita que esteja estragada, pronto. Um bicho qualquer. Uma formiga, vá. É pequenita. E não sente a dor. Não é?
Foto: (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Soalheira, Fundão, 2008

Verde alface

Um aperto ligeiro e várias rugas cingidas à beira do cimo dos olhos. É esse o prazer que o prazer da escrita me dá. E sinto-me bem. A cada respirar parece acontecer um sorriso inevitado. Inventado. Uma nova torrente de sal sobre a língua. E depois o gole de água fresca e limpa que se sorve. E o respirar satisfeito. Da saúde. A confiança nunca me faltou. Embora pareça que a não dê a ver. Ah, o calor. Eh, pá. Agora o que ia mêmo bem era uma cervejinha. Eia. Pá. N´era? E um beijo. Um mal-me-quer azul clarinho. Ou branco, pronto. Não há azul. Compreendo. A natureza não nos deu tudo. Uns tons de branco e um pouco de verde, verde alface. Gostas?
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Largo Camilo Castelo Branco, Lisboa, 2008

O extremo duche da alma?

E eu? Hã? E que há-de ser feito de mim quando as minhas 17 e 23 se aproximarem? Que farei? Rezar? Maltratar os passarinhos? Bah. Arghh. Nojo incandescente. Morrerei assim mesmo. Aqui, sentado a uma escrivaninha qualquer. Com dor nas costas e um picar nos pulsos que me irrita. Ai. Doutor, o que me receita nesta hora? A extrema-unção? O extremo duche da alma? Mas diga-me, doutor, de que padeço. Que me dói, aqui, assim aqui, aqui, debaixo do baço. Do braço. Faltam-me abraços. Esse, sim. É o meu mal.

O absurdo. Absurdo O.

Mas, afinal, de que é que estamos à espera? E por que nos penitenciamos? E rezamos, temendo o fundo eterno de um poço imaginado, mas fumegante, borbulhante, aviltante, angustiante. O medo. O pecado. A fórmula exacta do erro. Às 17 e 23. A uma hora qualquer. O temor mais profundo de deixar escorregar das mãos a perfeição que nem sequer se entende. O pudor de ter medo. De não ter fé. Esgrimo aqui palavras insensatas, por certo, para muitos. Mas esses serão os incautos detentores de uma verdade que nunca existiu nem nunca existirá. Vou jantar. Uma comichão imensa. E quê? Não se coça? Onde é que, afinal, mora esta verdade? Mas de que piolhos imberbes posso ter a certeza da existência? Dois dedos de ser. Uma lambada de cheiros e perfumes. Meio cambiante de nada. O absurdo. Absurdo O. Afasto-me um pouco. E tudo muda. Tudo ou nada. Assim, talvez. Talvez um pouco. Muito. E quem me afaga? Que me corrói nessa desgraça minha que é ver os outros apodrecer, iguais a mim? Bem que me afasto. De nada serve. Fica maior o pouco que restava. Ganha corpo o fôlego moribundo. Vibra de cor esse preto-e-branco de um segundo. A eternidade. O impensável acontecido. O fim do mundo. O fim de mim.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Campanhã, Porto, 2008

São essas as regras

Olha-me só para estas rugas. Tão novo. Riscos nas costas da mão. Serão do sol? Da passagem do tempo. Da viagem. Sim. Desse contínuo avanço rente ao corpo. Raso à pele. Tantos dias. E tão poucos. Matraquilho do passado e do futuro. Velho corpo no presente. Olha para ti. Que vês a mais que eu não vislumbre? Distraído? Vá lá. Senta-te direito e reconhece que também tu perdes o jogo. No final perdê-lo-ás. São essas as regras. O contrato que duas vidas te impuseram. E tu? Por aqui ainda? Até quando? Olha bem as costas da tua mão esquerda. E da outra. Vá, responde: quem és?

Alcoolemia-consciência

Depois acordaste-me e eu, bêbado de sonolências, perdi a cada respirar cada lembrança. Onde estivera? Tu me contarás. Sim, porque a tua história é a minha. Afinal, o universo é uno. Inverso. Um. Perdi toda a memória. Já me acontecia antes. Mas agora era mais grave. Soprei no balão da inconsciência e deu 1,21 gramas/litro de memórias. O meu estado de alcoolemia-consciência deu contra-ordenação. Fui condenado. Preferi pagar. Livrei-me. Mas não de mim. Que esse, sim, era o castigo mais-que-perfeito. Você vai ser sentenciado a livrar-se o seu corpo. A pagar 233 euros de multa. A viver sozinho. E a ter um emprego como deve ser. Disse o juiz. E eu, sem dinheiro para recursos, emigrei à força do meu corpo. Estrangeirei-me. Sou mais feliz agora. Ganho mais. E falo francês.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Lisboa, 2008

Estava escrito

Estava, estava. Que eu vi, com estes que a terra há-de comer. Andava eu a remexer nuns livros, em casa, e dei com um pequeno farrapo de papel rabiscado. Tinha umas palavras escritas por estas minhas mãos. Pronto. Fui eu. Ok. Tinham sido redigidas anos, muitos anos antes. E gostei, tanto que me espantei, dessa viagem de instantes.

Foi apenas um momento. Um breve contacto com a minha própria memória. Mas suficiente para que a minha calma desaparecesse, se evaporasse e se revolteasse, em turbilhão, sobre a minha cabeça.

Depois passou. Voltei a mim. E aqui estou. Prometo transcrever aqui essas palavras. Prometo.

Eia!

Eia, eia! Que me queres? Porque me procuras? Porque me esperas? Porque aguardas que eu te dê um sinal? Por quem te tomas? Quem és?

Para onde fomos?

Despediste-te de mim com um rápido adeus. Fui eu quem se foi embora. De quem fugimos, afinal? Para onde fomos em Novembro?
Foto (c) Oiratan

Mas não é hoje o quê?

Não é hoje. Nem talvez nunca. Mas não é hoje o quê? Que decisão tenho de tomar? O que tenho de fazer? Quais são as minhas próprias directivas? Sentir o vento? Dar uma volta? Ter uma casa? Será? Será esse o meu desiderato?

Não, não é isso que quero para mim. Quero apenas chegar a um sítio qualquer onde me sente e olhe e mansamente diga, de mim para mim, 'Boa tarde'.

Sem sequer olhar

Eia, eia, eia! Por aqui de novo, subindo escadas, subindo muros, de salto em salto. Já é de noite quando me aproximo de lugar algum. Ouvem-se zumbidos de toda a ordem. Luzes ao fundo, luzes, luzes numa cidade que já dorme, atenta e fiel a si própria. Imaginada? Não. Bem real. É nesta cidade que durmo. Acolheu-me e aqui estou. Um beco, uma porta de entrada, um hall, uma escada, duas mulheres que passam. Uma senhora à janela, mãos postas, como se toda a paisagem fosse o seu altar. Cabelo branco. A cidade é acariciada por uma brisa que faz cantar os plátanos. Passam dois carros. Que estranha noite. Um foco ténue ilumina um chafariz e eu passo por ele sem sequer olhar. Sem sequer olhar. Tenho pressa. Tenho alguma pressa de chegar a um lugar muito meu. A um lugar tão velho como eu próprio. Porque já estou onde estou. E se já estou onde estou, porque me dirijo para o lugar para onde vou? Porquê? Para onde? Para alguma encruzilhada, sinalizada a branco e azul? Sigo em frente. Sigo em frente neste passeio estreito e passo a mão, como uma carícia, por uma parede pintada a vermelho. Antiga. Era uma quinta esta quinta. A Quinta da Luz. Para onde vou? Nunca saberei. Esse será para sempre, e sempre, o meu mistério. O meu mistério. Também tenho direitos. Se ninguém criar um mistério para mim, tenho de ser eu a criá-lo. Adeus. Até já.

Dez da noite

São as dez da noite. Estou a chegar a casa. Sou eu quem dá, passo após passo, o rumo a este caminho tantas vezes repetido. Rumo a mim mesmo. Rumo a lugar algum. E aqui estou eu, penando por mais um passo, à procura de alguma coisa que não sei o que seja, de uma maresia, de um pedaço de ar que me afague a testa. De uma gota de suor. Silêncio. Quem serei quando, prostrado sobre mim mesmo, amado, odiado, afastado, ostracisado... quem serei nesses momentos? Por quem me tomo? Quantos sou, quantos fui e quantos serei? Por que nome me poderei identificar? Por que nome me identificarei amanhã quando te aproximares e disseres ‘bom dia, olha, está a chover’. Quem serei eu nesses momentos? Estou ofegante, apertado aqui nesta avenida. Passa um autocarro, um táxi e uma viatura particular, como soy dizer-se no calão policial que todos os dias me entra pelas orelhas e me sai pela ponta dos dedos. Escrevo notícias, dizem. Escrevo notícias. Estou quase a chegar a casa. E perco-me de mim mesmo no meio de todas as palavras. No meio de toda esta escuridão que me afoga, que me faz viver, que me alimenta. Eu sou esta falta de luz, este bater compassado do coração, esta chuva que cai às dez, este passo perdido que dou todos os dias no mesmo sentido, esta lacuna. Às vezes penso que o melhor seria vogar, vogar e não andar passo a passo, pouco a pouco, nada a nada. Uma miragem, um pequeno fôlego, um suspiro. Mais um passo. Estou quase em casa. Estou quase em mim. Quem serei quando entrar? Quem serei quando aquela chave rodar para a esquerda duas vezes e a porta castanha se entreabrir e no escuro daquela casa? Vou proteger-me, no escuro daquela concha. Vou encontrar-me a mim e a mim mesmo. Adeus e até amanhã.

Este dia é teu e meu

Marcha. Avança. Move-te. Partilha. Sofre. Canta. Vive. Vive livre, Liberdade!

De tudo o mais faça-se pó

Uma luz morna irrompe sobre as costas da floresta. Um ganir de cão sobressalta pombas esquecidas de deus. Miserável crime. O abandono. Respirar nessa hora é cumprir o mais puro egoísmo. É ser-se deus também. Matem-se as pombas. De que mais nos socorremos quando o transe, a angústia e o medo nos agrilhoam? À morte. À morte dos outros. Massacre! Desfaçam-se todas as pedras; amontoem-se os escombros e juntem-se-lhe os ratos mortos. Restos. Despejem-se em qualquer lugar os despojos dessa fúria incontida, moribunda. Deus há-de ser testemunha dessa festa. De tudo o mais faça-se pó.

(Texto escrito em Março de 2003)

Apetece-me escrever-te a cada vez que te penso. Por todo o lado, onde quer que me encontre, desejaria escrevinhar para ti, da mesma maneira que desejo estar no lugar para onde quero ir. A rua, principalmente, é onde mais me apetece falar-te por palavras escritas. Na maior parte das vezes não trago caneta, nem papel, nem spray de cores com que pudesse manchar paredes. Para ti.

Interrogo-me se o teu silêncio é esquecimento ou desamor. Ainda espero, acredita, que me digas alguma coisa, mesmo nada, mas que separes pelo menos por mais uma vez, esses teus dois fios de lábio por onde te saem as mentiras que me contas. Conta-me, vá lá, mais uma das tuas histórias de cavalos. Conta-me esses teus olhos de chinesa que nunca gostaste de reconhecer. Caso contrário, contarte-ei eu uma das minhas.

Será que tenho alguma?

(Lisboa, Dezembro de 1996. Foto: (c) Pedro Salgado, Lx, s/d)

Um beijo e um abraço

Passam num passo corrido. Passeiam como se cada passo soasse a mais um pedaço de texto redigido. Vogam, penam, arrastando o baço, com rasos pés de barro. Perdem-se, encolhidos no corpo passado a fino traço. Pelo tempo. Sobrevivem. Negoceiam e desfazem-se no espaço. Calcorreiam mundos, atacados de um cansaço flácido e baço. Regurgitado e mal amado a cada dia que passe. Reúnem-se de olhos vendados. Dão-se as mãos inchadas e um abraço. Pedem trocos a troco de um pedaço de mundo que nunca foi de quem lhos dá, como um laço que se ata num presente. Passado com factura. Um beijo e um abraço.

Portanto...

É recorrente este hábito de voltar espaçadamente a um lugar. Este é um deles. Os motivos que estão por detrás desse impulso? Desconheço-os. Há coisas, espaços e pessoas de que(m) se gosta sem explicações. E este pequeno mundo que o Fogo-Fátuo representa (tendo acoplados outros três mini-blogs - Alberto Caeiro Revisited, Noite e Solilóquio) é uma delas. Comparo-o a um amigo que não se vê há muito tempo, mas que se sabe, com uma certeza intuida, que está lá - igual a si próprio e sendo o mesmo amigo de sempre. Eis-me, portanto, aqui, mais uma vez. Já noutros posts regressei. E regressarei quantas vezes for necessário. Sempre e mais uma vez. Portanto...

Pingos

Adivinho uma noite suave à minha frente. Chove a pouco e pouco. Outono. Folhas de plátano começam a fazer-se ao mundo. Lançam-se a um chão de terra e pedras. Adivinho uma suave noite aqui por perto. O Outono sou eu quando assim me sinto. Caio sobre mim, amarelecido, pálido, seco. A chuva humedece-me os cabelos. Banha-me inteiro sem perguntar porquê. Deixo, sem resmungar, que ela me constipe. Afinal, o Outono sou eu. Ou será que é outro que ainda não sei?

Sempre o regresso

Nunca se sai. Nunca se abandona. Fica-se sempre. E o tempo avança, avança, até ficar (quase) parado. É o que parece a alguns. Mas não a todos. É o que não acontece, pelo menos, comigo. Quem me quiser seguir, que me siga, disse alguém. Eu por aqui continuo. Mas não parado.
Andy Mckee "Há mais numa viola do que você imagina". Parece um spot publicitário, mas aqui não há mentira nem sedução. O que parece, de facto, é ser quase mentira que este senhor possa "roubar" àquele instrumento o som que aqui se pode ouvir. Fiquei siderado. Dizer fabuloso é pouco. Genial.

Dito

O que aqui me traz são memórias. O que daqui me tira serão esperanças. Recordar. Esperar. Verbos apenas?