As horas
Onde vives tu
meu sangue
meu rio
meu ar constante
Onde acabas
é de onde o teu fôlego
de que universo vem
a tua seiva
Sabe-me
sabe-me por dentro
diz o meu nome
diz-me o voo do insecto
diz-me a noite
Como contas os dias
quando acordas
Leva-me
dos meus medos
de mim mesmo
de onde estou
das minhas horas
Salva-me
de ser ainda cedo
do meu sangue
do que digo
Reclama para ti
as minhas mãos
o meu cabelo raro
aqueles passos
Sê meu alimento
a minha água
o meu caminho
Deixa avançar sobre o castelo
todas as armas
o inimigo
o fim da glória
Silêncio amado
acorda
que amanheço.
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(também aqui)
Mar em ondas
As quatro margens do rio
Gente, mar e pedra
| Foto: J.E.O., Santa Apolónia, Lisboa, Março de 2011 |
Uma cidade é pedra
resolve os seus vícios abraçando o frio
faz concha das mãos
enquanto atropela as almas
nela vivas poisando.
Uma cidade é mar
quando resvala para o fundo
e bebe às golfadas
o ar já rarefeito do dia
depressa cansado da andança astral.
Uma cidade é gente
pisando sempre caminho conhecido
embalada na surpresa de um beco
nunca saciada de vícios e desmandos
rezando à pressa com os joelhos no futuro.
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O amor, esse pecado
Não confundir
| "Não confundir". Foto do original |
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Bons conselhos
Recupera para ti toda a vontade
o primeiro gole
ainda a sede
a viagem que te fez de encontro ao sul
Amplia o arco dos teus olhos
o ar que agora inspiras
o alcance novo dos teus passos
a fé ainda morna nos teus bolsos
Guarda contigo a cor dos dias
as vagas cortadas pelas quilhas
o vento a velejar sobre as marés
o azul azul que te encontrou.
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Sobre o silêncio
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Metal, tambor, metal
| "Metal, tambor, metal". Foto do original |
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Para que o caminho se abrisse (excerto)
(...)
A Cor Líquida
A António Ramos Rosa
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angular
marca
leve
temperatura
da palavra.
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Poros são pele
Território de lobos
| Soalheira, Outubro, 2010 |
Descanso em território de lobos e ovelhas. Entre pinheiros bravos e colossos de granito. Sento-me e o sol avança mais um pouco, senhor da vida toda, do momento. Que saudades hei-de eu ter destes instantes, quando o futuro vier comprar-me o que não tenho...
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Outro passo, novo rumo
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Sinto apertados os cabelos. Passa-me um vento invasivo sobre a face. Encolho os olhos para os proteger desse intruso ainda silencioso e invisível. Nasce o arrepio. Dei dois passos entretanto, pisei um novo chão, tracei um rumo. Amadureci na vida. Foram dois segundos, apenas, dois segundos. E tudo mudou. Serei já outro nesse entretanto imperial, invisível também mas presente como nenhuma outra presença. Fosse a minha vida numa arena e eu protestaria da injustiça dessas regras do jogo que dão ao adversário o poder de não se dar a ver, de atraiçoar, de bater sem pré-aviso e de com isso me fazer mais velho, mais fraco, menos presente. Outro passo, novo rumo. Mas, afinal, ando perdido?
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Entre vírgulas e pontos
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Perfume de nenhures, almas, silêncio. Sombra.
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Entre dois
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No ar
Mulher
Epitáfio
Compromissos
E há uma caixa dentro do meu corpo
Que feito foi deste cigarro?
Meteorologices
Cruzei-me um destes dias com um vento fraco, a moderado, de Nordeste. Estava que não podia. Que não podia parar por ali. Seguiu viagem. E eu com ele. Fiquei. Amedrontado. Amesquinhado. Amarrotado por dentro. Deslavado. Por passar. Mas, que raio...
Apeteceu-me recordar estas palavras. Ponto.
Desinfectadas almas
Amarrar esse escritório de escombros e gavetas é o que é preciso que se faça. Atacar. Desarrumar a turba feita de urros, desfeita de sentido. Adormecer sem ordem nem sossego. Volúpia celeste, incandescente e fria. Sussurrante. Penetrada. Renascer. Vede-vos. Ofegantes desse exercício de marear corpos e peles. Miseráveis carícias. Impenetráveis cadáveres de prazer. Frígidas frigideiras. Mingau. Pó de talco. Arroz sem bicho. Limpinhos esses corpos. Desinfectadas almas.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Tricolori, Lisboa, Junho, 2008
Elefante. Leão. Gibóia. Joaquim.
Menina Mariana telefonou, diz a criada. Que sim. Que deixe mensagem. Mas se já ligou... Que para a próxima, se próxima houver, digo eu, que ouvi toda a conversa. Esse ocupar oco do tempo e do espaço. Esse fio de navalha romba que nada corta, que nada tira e nada dá. Esse vazio. De que húmus é esta gente feita? Procurará um sentido para a vida? Mas, que raios... Que um raio me parta. Essa era boa. Que um raio me partisse. E eu, ali, de metades feito, em viagem. Quebrado. Dividido. Impróprio para consumo individual. Não me poderia afastar. Que é do bilhete? Para onde? Ah, esse comboio já saiu, há coisa de quinze minutos. E agora, o meu rico dinheirinho. Vou-me queixar. Oh, mãe! E um raio partiu-me. E, assim, fulminado pela mão pesada de uma nuvem, entrei numa gruta de fogo. Incandescências. Milagres. Profecias. E morri. Ali mesmo, inhozinho da silva. E era eu. Re-morto. Desnascido. Pura imagem de mim mesmo. Elefante. Leão. Gibóia. Joaquim.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, A23, Soalheira, Fundão, 2008
Definitivos. Provisórios.
Pois não. Não se encontra resposta. Tudo se subdivide, até ao limite indivisível do limite já desmultiplicado. E isto é o quê? Baterias? Ritmos? Eternas divisões. Marcas de água. Registos. Carimbos de certeza. Definitivos. Provisórios. Exactidões, imprecisões. O momento mais humano. A certeza. Do fim da incerteza. A inconsequência. A inoportuna inconsequência das palavras.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Quinta da Luz, Lisboa Maio 2008
Fernando Pessoa, 120 anos a 13 de Junho
Acaba-se-me a paciência. Regresso. Que horas são, afinal? 17 e 23? Outra vez? Ainda? Despejo mundos sobre a paisagem clara. E já não volto. Dizem-me. Vou apanhar-me. E corro. E não me canso. Que não me faz falta o cansaço. Não o comprarei em saldo. Ou em época baixa. Deixem-me correr, porra. Deixem-me respirar. Quero ser peixe. E respirar. Assim, de boquinha a soprar baixinho. Como que a dar um beijo no vazio. Constante. No vácuo imenso do fundo do tanque do aquário. Aproxima-se de mim uma dúvida. E esfrego as mãos. E respiro sem querer. Olho para o lado, fitando a janela. Mas sem olhar. Sinto aqui uma picada na barriga da perna. Aguarde, por favor. Vou ter de coçar isto. Que não passa. Chiça. Que não passa. Bom. Próóximôôô.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Velho BUS, Miraflores, Maio 2008
O furacão da dúvida
A marca circular sobre o corpo. O caminho por onde segue. O rasto. O sémen deixado sem dó pelo caminho. A semente inacabada. Porque essa dúvida se mantém. Permanente. Perene. Mas circunstancial. Ácida e volúvel, mas mansa e tempestuosa. O furacão da dúvida. A tempestade.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Avenida dos Combatentes, Lisboa, Maio 2008
