Como ocupas tu as tuas mãos?

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como ocupas tu as tuas mãos?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?

de onde te vêm as histórias?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?

qual a sua cor?
e que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
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As margens unem pontes

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e eu choro antecipadamente o teu regresso
todas as lágrimas se despem, felizes

da espuma do futuro que lhes dás...
e o corpo que carrego revigora, feito

do sangue bombeado em fulvo espasmo.
aguardamos a morte na distância

tacteando imagens sobre sombras
e a muralha a construir entre beirais.

choro antecipadamente o adeus que lançarás
ainda antes de que chegues à partida

o fruto caído aos pés da torre
não acredita que as margens unem pontes.

recebo-te com adeuses, que te vais
chegando, mais, mais longe. mais.
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(trecho do poema «13 dias»)

As horas

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Onde vives tu

meu sangue

meu rio

meu ar constante


Onde acabas

é de onde  o teu fôlego

de que universo vem

a tua seiva


Sabe-me

sabe-me por dentro

diz o meu nome

diz-me o voo do insecto

diz-me a noite


Como contas os dias

quando acordas


Leva-me

dos meus medos

de mim mesmo

de onde estou

das minhas horas


Salva-me

de ser ainda cedo

do meu sangue

do que digo


Reclama para ti

as minhas mãos

o meu cabelo raro

aqueles passos


Sê meu alimento

a minha água

o meu caminho


Deixa avançar sobre o castelo

todas as armas

o inimigo

o fim da glória


Silêncio amado

acorda

que amanheço.
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(também aqui)

Mar em ondas

A minha Mãe


Sai-me do corpo uma ténue lembrança da cidade
Fujo dali como quem pode alcançar a sapiência
Deixando para trás a altivez, toda a ciência
Diluindo nesta coisa de estar longe a humanidade.

Vim reconhecer-me numa praia pejada de humidade
Onde não há vozes que se oiçam, só as ondas
E essas dizem: “Encontra-te por dentro, não te escondas
Do que sempre foste desde a mais pequena idade”.

Da musgosa memória dos arquivos não me fio
Nem da pura lã virgem das minhas camisolas
Agora rente ao mar as breves ondas são corolas
Molhando as lombadas dos livros pelo estio.



As quatro margens do rio

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Quero uma janela à minha porta
um halo de luz
determinado
quatro margens de um rio envidraçado
quero com calma
perceber a minha cruz.

Quero uma montanha deitada
à minha sombra
num jardim desta cidade
que beba água do rio emoldurado
quero o vergão da palavra ronronada
pedindo sono ao colo que se dobra.

Quero o grito verde dos pinhais
assobiado no escuro do medo
dos silvos e dos troncos
incendiado no verão dos condenados
quero a chama acesa desse inverno
carvão soprado, a ponta do meu dedo.

Quero a distância de um só salto
a lúgubre conquista
no raso campo da batalha justa
seara de corpos trespassados
quero a vitória cantad’à janela
e que nenhum dos quatro ventos lhe resista.
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Gente, mar e pedra

Foto: J.E.O., Santa Apolónia, Lisboa, Março de 2011
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Uma cidade é pedra
resolve os seus vícios abraçando o frio
faz concha das mãos
enquanto atropela as almas
nela vivas poisando.

Uma cidade é mar
quando resvala para o fundo
e bebe às golfadas
o ar já rarefeito do dia
depressa cansado da andança astral.

Uma cidade é gente
pisando sempre caminho conhecido
embalada na surpresa de um beco
nunca saciada de vícios e desmandos
rezando à pressa com os joelhos no futuro.

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Tormento

Foto: J.E.O., Soalheira, Abril de 2011


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Desconfiar da flor para a qual se olha
É um tormento
Quando ela é verdadeira e se consegue.
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O amor, esse pecado

"O amor, esse pecado". Foto do original

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Um só momento me encanta
um só momento,
estrela da tarde,
                    o abraço

                    o beijo

                    a manta

                    o respirar salgado
                    o balanço
                    o formigueiro faminto do desejo que não cansa.

O amor, esse pecado,
                    meu bem,
                    é o momento.
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Não confundir

"Não confundir". Foto do original

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A noite é quando os corpos adormecem
digo
os dos pássaros
que das árvores

essas

crescem subindo em sono constante.

Sob o véu azul do seu veludo
não há asas que batam
ou folhas espreguiçando-se.

Sim, a noite tem um sinal
nas costas
uma curva apertada
na alma
sente uma ligeira dor
a cada hora
prende os longos cabelos
no umbral de cada porta.

Para que não haja quem se engane
e diga do dia as mesmas coisas.
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Bons conselhos

Foto: J.E.O., Soalheira, Abril de 2011


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Esquece toda a dúvida
                  o remorso
                  o copo vazio ao fim da noite
                  o alcatrão silencioso e a paisagem

Recupera para ti toda a vontade
                  o primeiro gole
                  ainda a sede
                  a viagem que te fez de encontro ao sul

Amplia o arco dos teus olhos
                  o ar que agora inspiras
                  o alcance novo dos teus passos
                  a fé ainda morna nos teus bolsos

Guarda contigo a cor dos dias
                  as vagas cortadas pelas quilhas
                  o vento a velejar sobre as marés
                  o azul azul que te encontrou. 

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Sobre o silêncio


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Sobre o silêncio
nada mais há a dizer.

A não ser que mata
e destrói o que nunca se quis ouvir
ou tudo o que está mesmo quase a ser dito.

Esse estar calado das bocas,
ferrugem insistente,
lapa nas paredes da garganta
barragem às palavras que persistem no escuro do estômago.

O discurso nunca proferido.

Constante animal de palco,
oculto nas pequenas e mais teimosas heresias,
camuflagem da impotência e da revelação.
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Metal, tambor, metal

"Metal, tambor, metal". Foto do original

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Fora de casa é já dia pleno
mas há uma noite que persiste
            cá por dentro
há esta fanfarra
a percorrer as minhas veias
não a oiço nem vejo
apenas lhe sinto o latejar
no corpo estreito.

Metal, tambor, metal
e mais silêncio

É estranha a festa
quando o metabolismo é imperfeito.
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Para que o caminho se abrisse (excerto)


(...) 
Se fosse viva a pedra que lançaste
e da tua mão brotasse apenas água
para que o caminho se abrisse
onde estariam os meus olhos?
(...)



A Cor Líquida


A António Ramos Rosa

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A cor emerge

              líquida

                         frágil

                                  angular

              marca

                        digital

                                  da Terra

             leve

                       temperatura

                                  da palavra.

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Poros são pele

"Poros são pele". Foto do original

 A Adília Lopes

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Os poros da pele
são poros,
pontos
pele em pontas
pintas, pêlos
e sinais.

São pele
os poros,
nada mais.
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Território de lobos



Soalheira, Outubro, 2010



Descanso em território de lobos e ovelhas. Entre pinheiros bravos e colossos de granito. Sento-me e o sol avança mais um pouco, senhor da vida toda, do momento. Que saudades hei-de eu ter destes instantes, quando o futuro vier comprar-me o que não tenho...
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Outro passo, novo rumo


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Sinto apertados os cabelos. Passa-me um vento invasivo sobre a face. Encolho os olhos para os proteger desse intruso ainda silencioso e invisível. Nasce o arrepio. Dei dois passos entretanto, pisei um novo chão, tracei um rumo. Amadureci na vida. Foram dois segundos, apenas, dois segundos. E tudo mudou. Serei já outro nesse entretanto imperial, invisível também mas presente como nenhuma outra presença. Fosse a minha vida numa arena e eu protestaria da injustiça dessas regras do jogo que dão ao adversário o poder de não se dar a ver, de atraiçoar, de bater sem pré-aviso e de com isso me fazer mais velho, mais fraco, menos presente. Outro passo, novo rumo. Mas, afinal, ando perdido?
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Entre vírgulas e pontos


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Perfume de nenhures, almas, silêncio. Sombra.
Sideral, livre, em branco, público, interior, de tempo. Espaço.
Literal, aprisionado, preenchido, exterior, vácuo. Negro.
Procura, interrogação, busca, digestão, confusão. Vazio.
Dúvida, desprezo, mágoa, saliência, curva, saída. Morte.
Luz, paisagem, flor vermelha, lírio, terra, onda, vento. Vida.
Gume, dedo, corte, dor, sangue, espasmo. Cura.
Mão, outra mão, olhares, toque, afago. Beijo.
Medo, corpo, velocidade, suor, angústia, pressa, frio. Fuga.
Vertigem, cume, verde, pedra, monte, impulso. Salto.
Divisória, estupor, território, amor, fronteira, dor, linha. Nada.
Nascente, início, parto, origem, espasmo, suspiro. Fim.
Jogo, falácia, regra, caminho, vitória. Mito.
Dança, sala, convite, encontro, enfado. Desamor.
Raso, muito, caso, fruto, raro, fortuito, caro. Fio.
Nascente, ocaso, fio, vaso, suco, prazo, vil, acaso. Coito.
Golpe, traço, murro, abraço, ordem, passo. Grito.
Conto, oito, sempre, escasso, sobra, tudo, mostra. Vago.
Pico, morse, saco, trilho, velho, gomo, guerra. Sede.
Cova, grão, caule, pétala, asa, voo, longe. Terra.
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Entre dois


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De longas e intermináveis perguntas é desenhado o perfil de cada um de nós. O meu. O teu. E do entretanto, o que é feito? Do que fica a meio de nós dois? Será de sombras e vento limpo, de cascas de pinheiro, terra batida ou uva pisada isso que fica? Onde não estamos, o que há? Perfume de nenhures, almas, silêncio. Sombra. Gosto do que me dizes, quando o dizes. Esse é momento em que o estar parado das coisas não tem lugar. Esse é o máximo e o mínimo encontrados. Nesse entretanto sei-te aqui e isso me basta. Não vou passear, não saio para respirar nem para matar a sede, não necessito do mais que haja, se o houver. Porque me deste o que me falta. Amordaça o que digo e vê se daí sobeja ainda um sopro de ar. Vê lá. Sobrou? Viemos de um lugar qualquer que nem sonhámos e aqui somos, soldados de um posto que não quisemos e de que só pretendemos fugir. Corre. Vem por aqui, pisa sobre as marcas que deixei e engana o mundo inteiro que cegamente te persegue. Não é bom? Que bem que sabe, esse fugir silencioso que te dás. Dá-me o teu espaço em troca dos meus pés. A longa corda do meu caminho haverá de pertencer-te – cada memória, os meus dias, o fôlego que já gastei. O respirar. Dou-te tudo a troco de um lugar que desconheço e quero meu. Aceitarás o que te peço? Mas, afinal, o que te dou?
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No ar

Vens ter aos meus olhos Como sombra E eu beijo-te de longe através da poeira poisada no ar.
Se é o teu corpo o que abarco
Baloiço-me agora Enquanto te beijo de longe no ar já sem poeira.
Baloiço-me a caminho dos teus olhos Vens ter com o meu beijo E eu beijo-te através da poeira enquanto pairo no ar.
Lisboa, 2009