como ocupas tu as tuas mãos?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
de onde te vêm as histórias?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
qual a sua cor?
e que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
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| Foto: J.E.O., Santa Apolónia, Lisboa, Março de 2011 |
| "Não confundir". Foto do original |
| "Metal, tambor, metal". Foto do original |
| Soalheira, Outubro, 2010 |
Cruzei-me um destes dias com um vento fraco, a moderado, de Nordeste. Estava que não podia. Que não podia parar por ali. Seguiu viagem. E eu com ele. Fiquei. Amedrontado. Amesquinhado. Amarrotado por dentro. Deslavado. Por passar. Mas, que raio...
Amarrar esse escritório de escombros e gavetas é o que é preciso que se faça. Atacar. Desarrumar a turba feita de urros, desfeita de sentido. Adormecer sem ordem nem sossego. Volúpia celeste, incandescente e fria. Sussurrante. Penetrada. Renascer. Vede-vos. Ofegantes desse exercício de marear corpos e peles. Miseráveis carícias. Impenetráveis cadáveres de prazer. Frígidas frigideiras. Mingau. Pó de talco. Arroz sem bicho. Limpinhos esses corpos. Desinfectadas almas.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Tricolori, Lisboa, Junho, 2008
Menina Mariana telefonou, diz a criada. Que sim. Que deixe mensagem. Mas se já ligou... Que para a próxima, se próxima houver, digo eu, que ouvi toda a conversa. Esse ocupar oco do tempo e do espaço. Esse fio de navalha romba que nada corta, que nada tira e nada dá. Esse vazio. De que húmus é esta gente feita? Procurará um sentido para a vida? Mas, que raios... Que um raio me parta. Essa era boa. Que um raio me partisse. E eu, ali, de metades feito, em viagem. Quebrado. Dividido. Impróprio para consumo individual. Não me poderia afastar. Que é do bilhete? Para onde? Ah, esse comboio já saiu, há coisa de quinze minutos. E agora, o meu rico dinheirinho. Vou-me queixar. Oh, mãe! E um raio partiu-me. E, assim, fulminado pela mão pesada de uma nuvem, entrei numa gruta de fogo. Incandescências. Milagres. Profecias. E morri. Ali mesmo, inhozinho da silva. E era eu. Re-morto. Desnascido. Pura imagem de mim mesmo. Elefante. Leão. Gibóia. Joaquim.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, A23, Soalheira, Fundão, 2008
Pois não. Não se encontra resposta. Tudo se subdivide, até ao limite indivisível do limite já desmultiplicado. E isto é o quê? Baterias? Ritmos? Eternas divisões. Marcas de água. Registos. Carimbos de certeza. Definitivos. Provisórios. Exactidões, imprecisões. O momento mais humano. A certeza. Do fim da incerteza. A inconsequência. A inoportuna inconsequência das palavras.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Quinta da Luz, Lisboa Maio 2008