Ferro inabitável
Encontrei o abraço no frio ferro
dei-lhe um beijo grato
dele brotou então um coração
alto relevo
zinco
azoto
e combustão.
Devolveu-me o abraço
e o beijo
e cirandou voando
ligeiro
num corpo etéreo de nuvem
de ferrugem cor do cobre.
Ferro inabitável.
#
Aos teus lábios
Aos teus lábios
Matinais
Rosados
Entreabertos
Redondos
Cansados
Que agora vão
Ergo a taça da memória
O copo da boca
O cristal e o beijo húmido da carne
E bebo de um trago
A noite inteira que me deste.
#
Como ocupas tu as tuas mãos?
como ocupas tu as tuas mãos?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
de onde te vêm as histórias?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
qual a sua cor?
e que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
#
As margens unem pontes
e eu choro antecipadamente o teu regresso
todas as lágrimas se despem, felizes
da espuma do futuro que lhes dás...
e o corpo que carrego revigora, feito
do sangue bombeado em fulvo espasmo.
aguardamos a morte na distância
tacteando imagens sobre sombras
e a muralha a construir entre beirais.
choro antecipadamente o adeus que lançarás
ainda antes de que chegues à partida
o fruto caído aos pés da torre
não acredita que as margens unem pontes.
recebo-te com adeuses, que te vais
chegando, mais, mais longe. mais.
#
(trecho do poema «13 dias»)
As horas
Onde vives tu
meu sangue
meu rio
meu ar constante
Onde acabas
é de onde o teu fôlego
de que universo vem
a tua seiva
Sabe-me
sabe-me por dentro
diz o meu nome
diz-me o voo do insecto
diz-me a noite
Como contas os dias
quando acordas
Leva-me
dos meus medos
de mim mesmo
de onde estou
das minhas horas
Salva-me
de ser ainda cedo
do meu sangue
do que digo
Reclama para ti
as minhas mãos
o meu cabelo raro
aqueles passos
Sê meu alimento
a minha água
o meu caminho
Deixa avançar sobre o castelo
todas as armas
o inimigo
o fim da glória
Silêncio amado
acorda
que amanheço.
#
(também aqui)
Mar em ondas
As quatro margens do rio
Gente, mar e pedra
| Foto: J.E.O., Santa Apolónia, Lisboa, Março de 2011 |
Uma cidade é pedra
resolve os seus vícios abraçando o frio
faz concha das mãos
enquanto atropela as almas
nela vivas poisando.
Uma cidade é mar
quando resvala para o fundo
e bebe às golfadas
o ar já rarefeito do dia
depressa cansado da andança astral.
Uma cidade é gente
pisando sempre caminho conhecido
embalada na surpresa de um beco
nunca saciada de vícios e desmandos
rezando à pressa com os joelhos no futuro.
#
O amor, esse pecado
Não confundir
| "Não confundir". Foto do original |
#
Bons conselhos
Recupera para ti toda a vontade
o primeiro gole
ainda a sede
a viagem que te fez de encontro ao sul
Amplia o arco dos teus olhos
o ar que agora inspiras
o alcance novo dos teus passos
a fé ainda morna nos teus bolsos
Guarda contigo a cor dos dias
as vagas cortadas pelas quilhas
o vento a velejar sobre as marés
o azul azul que te encontrou.
#
Sobre o silêncio
#
Metal, tambor, metal
| "Metal, tambor, metal". Foto do original |
#
Para que o caminho se abrisse (excerto)
(...)
A Cor Líquida
A António Ramos Rosa
#
angular
marca
leve
temperatura
da palavra.
#
Poros são pele
Território de lobos
| Soalheira, Outubro, 2010 |
Descanso em território de lobos e ovelhas. Entre pinheiros bravos e colossos de granito. Sento-me e o sol avança mais um pouco, senhor da vida toda, do momento. Que saudades hei-de eu ter destes instantes, quando o futuro vier comprar-me o que não tenho...
#
Outro passo, novo rumo
#
Sinto apertados os cabelos. Passa-me um vento invasivo sobre a face. Encolho os olhos para os proteger desse intruso ainda silencioso e invisível. Nasce o arrepio. Dei dois passos entretanto, pisei um novo chão, tracei um rumo. Amadureci na vida. Foram dois segundos, apenas, dois segundos. E tudo mudou. Serei já outro nesse entretanto imperial, invisível também mas presente como nenhuma outra presença. Fosse a minha vida numa arena e eu protestaria da injustiça dessas regras do jogo que dão ao adversário o poder de não se dar a ver, de atraiçoar, de bater sem pré-aviso e de com isso me fazer mais velho, mais fraco, menos presente. Outro passo, novo rumo. Mas, afinal, ando perdido?
#
Entre vírgulas e pontos
#
Perfume de nenhures, almas, silêncio. Sombra.
#
Entre dois
#
No ar
Mulher
Epitáfio
Compromissos
E há uma caixa dentro do meu corpo
Que feito foi deste cigarro?
Meteorologices
Cruzei-me um destes dias com um vento fraco, a moderado, de Nordeste. Estava que não podia. Que não podia parar por ali. Seguiu viagem. E eu com ele. Fiquei. Amedrontado. Amesquinhado. Amarrotado por dentro. Deslavado. Por passar. Mas, que raio...
Apeteceu-me recordar estas palavras. Ponto.
Desinfectadas almas
Amarrar esse escritório de escombros e gavetas é o que é preciso que se faça. Atacar. Desarrumar a turba feita de urros, desfeita de sentido. Adormecer sem ordem nem sossego. Volúpia celeste, incandescente e fria. Sussurrante. Penetrada. Renascer. Vede-vos. Ofegantes desse exercício de marear corpos e peles. Miseráveis carícias. Impenetráveis cadáveres de prazer. Frígidas frigideiras. Mingau. Pó de talco. Arroz sem bicho. Limpinhos esses corpos. Desinfectadas almas.
Foto (c) Joaquim Eduardo Oliveira, Tricolori, Lisboa, Junho, 2008
