Amanhã revelarás tudo o que ouviste


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Amanhã revelarás
tudo o que ouviste
pela frincha da porta
atordoada.
São dormências
errâncias
cicatrizes
quanto ouves
quanto dizes
quanto guardas.

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s/ tit. II

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amas
desconhecendo a tua pele
ou os teus passos

amas
cumprindo a preceito o desconforto
não gostas do teu nome

amas
vegetando emoções e fé
e ao desgoverno
dás as mãos

amas
inadvertidamente
o teu cabelo
que enfraquece.
 

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Corpo

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acompanho a sombra.
o traço nasce
instante novo.
hesitação.
depois o vento
e o silêncio
ficam
como sombras das partidas,
mas só na zona escura
olhados,
mas só no vento
ouvidos.
faz-se sempre tarde
num corpo
abraçado ao coração.
 

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s/ tit. I

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O tempo é isto
o nada
a eternidade
a lenta paciência de uma árvore.

O tempo é tudo isto
um estranho efeito
um ciclo sempre e nunca consumado
o corpo rarefeito
acobardado.

Ainda aqui estou
ainda há tempo
para construir o absurdo
e ser perfeito.
 

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Migração dos males

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Quem nos dera
                   os olhos afagados
                   o manso rebanho
                   a densa noite
                   duas vozes em sussurro calmo
                   a migração dos males
novo o corpo.
 

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(para ler em voz alta)

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Não. Não pertence às mãos este querer. Sim.

Não. Nem às pontas frias dos seus dedos. Sim.

Não. Não sabe a doçura o já não ter. Sim.

Não. Nem a aspereza sabe a tanto medo. Sim.
 

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acção

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abraça o estranho

entrega um corpo

aquece o sono

amaina um barco

encontra o ponto

levanta um astro

desfaz o laço

atira um seixo

acolhe o beijo
 

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Ferro inabitável

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Encontrei o abraço no frio ferro
dei-lhe um beijo grato
dele brotou então um coração
alto relevo
zinco
azoto
e combustão.

Devolveu-me o abraço
e o beijo
e cirandou voando
ligeiro
num corpo etéreo de nuvem
de ferrugem cor do cobre.

Ferro inabitável. 


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Aos teus lábios

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Aos teus lábios
Matinais
Rosados
Entreabertos
Redondos
Cansados
Que agora vão
Ergo a taça da memória
O copo da boca
O cristal e o beijo húmido da carne
E bebo de um trago
A noite inteira que me deste.
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Como ocupas tu as tuas mãos?

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como ocupas tu as tuas mãos?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?

de onde te vêm as histórias?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?

qual a sua cor?
e que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
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As margens unem pontes

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e eu choro antecipadamente o teu regresso
todas as lágrimas se despem, felizes

da espuma do futuro que lhes dás...
e o corpo que carrego revigora, feito

do sangue bombeado em fulvo espasmo.
aguardamos a morte na distância

tacteando imagens sobre sombras
e a muralha a construir entre beirais.

choro antecipadamente o adeus que lançarás
ainda antes de que chegues à partida

o fruto caído aos pés da torre
não acredita que as margens unem pontes.

recebo-te com adeuses, que te vais
chegando, mais, mais longe. mais.
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(trecho do poema «13 dias»)

As horas

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Onde vives tu

meu sangue

meu rio

meu ar constante


Onde acabas

é de onde  o teu fôlego

de que universo vem

a tua seiva


Sabe-me

sabe-me por dentro

diz o meu nome

diz-me o voo do insecto

diz-me a noite


Como contas os dias

quando acordas


Leva-me

dos meus medos

de mim mesmo

de onde estou

das minhas horas


Salva-me

de ser ainda cedo

do meu sangue

do que digo


Reclama para ti

as minhas mãos

o meu cabelo raro

aqueles passos


Sê meu alimento

a minha água

o meu caminho


Deixa avançar sobre o castelo

todas as armas

o inimigo

o fim da glória


Silêncio amado

acorda

que amanheço.
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(também aqui)

Mar em ondas

A minha Mãe


Sai-me do corpo uma ténue lembrança da cidade
Fujo dali como quem pode alcançar a sapiência
Deixando para trás a altivez, toda a ciência
Diluindo nesta coisa de estar longe a humanidade.

Vim reconhecer-me numa praia pejada de humidade
Onde não há vozes que se oiçam, só as ondas
E essas dizem: “Encontra-te por dentro, não te escondas
Do que sempre foste desde a mais pequena idade”.

Da musgosa memória dos arquivos não me fio
Nem da pura lã virgem das minhas camisolas
Agora rente ao mar as breves ondas são corolas
Molhando as lombadas dos livros pelo estio.



As quatro margens do rio

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Quero uma janela à minha porta
um halo de luz
determinado
quatro margens de um rio envidraçado
quero com calma
perceber a minha cruz.

Quero uma montanha deitada
à minha sombra
num jardim desta cidade
que beba água do rio emoldurado
quero o vergão da palavra ronronada
pedindo sono ao colo que se dobra.

Quero o grito verde dos pinhais
assobiado no escuro do medo
dos silvos e dos troncos
incendiado no verão dos condenados
quero a chama acesa desse inverno
carvão soprado, a ponta do meu dedo.

Quero a distância de um só salto
a lúgubre conquista
no raso campo da batalha justa
seara de corpos trespassados
quero a vitória cantad’à janela
e que nenhum dos quatro ventos lhe resista.
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