FOGO-FÁTUO
Amanhã revelarás tudo o que ouviste
#
Amanhã revelarás
tudo o que ouviste
pela frincha da porta
atordoada.
São dormências
errâncias
cicatrizes
quanto ouves
quanto dizes
quanto guardas.
#
s/ tit. II
#
amas
desconhecendo a tua pele
ou os teus passos
amas
cumprindo a preceito o desconforto
não gostas do teu nome
amas
vegetando emoções e fé
e ao desgoverno
dás as mãos
amas
inadvertidamente
o teu cabelo
que enfraquece.
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amas
desconhecendo a tua pele
ou os teus passos
amas
cumprindo a preceito o desconforto
não gostas do teu nome
amas
vegetando emoções e fé
e ao desgoverno
dás as mãos
amas
inadvertidamente
o teu cabelo
que enfraquece.
#
Corpo
#
acompanho a sombra.
o traço nasce
instante novo.
hesitação.
depois o vento
e o silêncio
ficam
como sombras das partidas,
mas só na zona escura
olhados,
mas só no vento
ouvidos.
faz-se sempre tarde
num corpo
abraçado ao coração.
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acompanho a sombra.
o traço nasce
instante novo.
hesitação.
depois o vento
e o silêncio
ficam
como sombras das partidas,
mas só na zona escura
olhados,
mas só no vento
ouvidos.
faz-se sempre tarde
num corpo
abraçado ao coração.
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s/ tit. I
#
O tempo é isto
o nada
a eternidade
a lenta paciência de uma árvore.
O tempo é tudo isto
um estranho efeito
um ciclo sempre e nunca consumado
o corpo rarefeito
acobardado.
Ainda aqui estou
ainda há tempo
para construir o absurdo
e ser perfeito.
#
O tempo é isto
o nada
a eternidade
a lenta paciência de uma árvore.
O tempo é tudo isto
um estranho efeito
um ciclo sempre e nunca consumado
o corpo rarefeito
acobardado.
Ainda aqui estou
ainda há tempo
para construir o absurdo
e ser perfeito.
#
Migração dos males
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Quem nos dera
os olhos afagados
o manso rebanho
a densa noite
duas vozes em sussurro calmo
a migração dos males
novo o corpo.
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Quem nos dera
os olhos afagados
o manso rebanho
a densa noite
duas vozes em sussurro calmo
a migração dos males
novo o corpo.
#
(para ler em voz alta)
#
Não. Não pertence às mãos este querer. Sim.
Não. Nem às pontas frias dos seus dedos. Sim.
Não. Não sabe a doçura o já não ter. Sim.
Não. Nem a aspereza sabe a tanto medo. Sim.
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Não. Não pertence às mãos este querer. Sim.
Não. Nem às pontas frias dos seus dedos. Sim.
Não. Não sabe a doçura o já não ter. Sim.
Não. Nem a aspereza sabe a tanto medo. Sim.
#
acção
#
abraça o estranho
entrega um corpo
aquece o sono
amaina um barco
encontra o ponto
levanta um astro
desfaz o laço
atira um seixo
acolhe o beijo
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abraça o estranho
entrega um corpo
aquece o sono
amaina um barco
encontra o ponto
levanta um astro
desfaz o laço
atira um seixo
acolhe o beijo
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Ferro inabitável
#
Encontrei o abraço no frio ferro
dei-lhe um beijo grato
dele brotou então um coração
alto relevo
zinco
azoto
e combustão.
Devolveu-me o abraço
e o beijo
e cirandou voando
ligeiro
num corpo etéreo de nuvem
de ferrugem cor do cobre.
Ferro inabitável.
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Encontrei o abraço no frio ferro
dei-lhe um beijo grato
dele brotou então um coração
alto relevo
zinco
azoto
e combustão.
Devolveu-me o abraço
e o beijo
e cirandou voando
ligeiro
num corpo etéreo de nuvem
de ferrugem cor do cobre.
Ferro inabitável.
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Aos teus lábios
#
Aos teus lábios
Matinais
Rosados
Entreabertos
Redondos
Cansados
Que agora vão
Ergo a taça da memória
O copo da boca
O cristal e o beijo húmido da carne
E bebo de um trago
A noite inteira que me deste.
#
Aos teus lábios
Matinais
Rosados
Entreabertos
Redondos
Cansados
Que agora vão
Ergo a taça da memória
O copo da boca
O cristal e o beijo húmido da carne
E bebo de um trago
A noite inteira que me deste.
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Como ocupas tu as tuas mãos?
como ocupas tu as tuas mãos?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
de onde te vêm as histórias?
que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
qual a sua cor?
e que lhes dizes
à tarde?
ao vento?
à noite?
#
As margens unem pontes
#
e eu choro antecipadamente o teu regresso
todas as lágrimas se despem, felizes
da espuma do futuro que lhes dás...
e o corpo que carrego revigora, feito
do sangue bombeado em fulvo espasmo.
aguardamos a morte na distância
tacteando imagens sobre sombras
e a muralha a construir entre beirais.
choro antecipadamente o adeus que lançarás
ainda antes de que chegues à partida
o fruto caído aos pés da torre
não acredita que as margens unem pontes.
recebo-te com adeuses, que te vais
chegando, mais, mais longe. mais.
#
(trecho do poema «13 dias»)
e eu choro antecipadamente o teu regresso
todas as lágrimas se despem, felizes
da espuma do futuro que lhes dás...
e o corpo que carrego revigora, feito
do sangue bombeado em fulvo espasmo.
aguardamos a morte na distância
tacteando imagens sobre sombras
e a muralha a construir entre beirais.
choro antecipadamente o adeus que lançarás
ainda antes de que chegues à partida
o fruto caído aos pés da torre
não acredita que as margens unem pontes.
recebo-te com adeuses, que te vais
chegando, mais, mais longe. mais.
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(trecho do poema «13 dias»)
As horas
#
Onde vives tu
meu sangue
meu rio
meu ar constante
Onde acabas
é de onde o teu fôlego
de que universo vem
a tua seiva
Sabe-me
sabe-me por dentro
diz o meu nome
diz-me o voo do insecto
diz-me a noite
Como contas os dias
quando acordas
Leva-me
dos meus medos
de mim mesmo
de onde estou
das minhas horas
Salva-me
de ser ainda cedo
do meu sangue
do que digo
Reclama para ti
as minhas mãos
o meu cabelo raro
aqueles passos
Sê meu alimento
a minha água
o meu caminho
Deixa avançar sobre o castelo
todas as armas
o inimigo
o fim da glória
Silêncio amado
acorda
que amanheço.
#
(também aqui)
Onde vives tu
meu sangue
meu rio
meu ar constante
Onde acabas
é de onde o teu fôlego
de que universo vem
a tua seiva
Sabe-me
sabe-me por dentro
diz o meu nome
diz-me o voo do insecto
diz-me a noite
Como contas os dias
quando acordas
Leva-me
dos meus medos
de mim mesmo
de onde estou
das minhas horas
Salva-me
de ser ainda cedo
do meu sangue
do que digo
Reclama para ti
as minhas mãos
o meu cabelo raro
aqueles passos
Sê meu alimento
a minha água
o meu caminho
Deixa avançar sobre o castelo
todas as armas
o inimigo
o fim da glória
Silêncio amado
acorda
que amanheço.
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(também aqui)
Mar em ondas
A minha Mãe
Sai-me do corpo uma ténue
lembrança da cidade
Fujo dali como quem pode
alcançar a sapiência
Deixando para trás a altivez,
toda a ciência
Diluindo nesta coisa de estar
longe a humanidade.
Vim reconhecer-me numa praia
pejada de humidade
Onde não há vozes que se
oiçam, só as ondas
E essas dizem: “Encontra-te
por dentro, não te escondas
Do que sempre foste desde a
mais pequena idade”.
Da musgosa memória dos
arquivos não me fio
Nem da pura lã virgem das
minhas camisolas
Agora rente ao mar as breves
ondas são corolas
Molhando as lombadas dos
livros pelo estio.
As quatro margens do rio
#
Quero uma janela à minha
porta
um halo de luz
determinado
quatro margens de um rio
envidraçado
quero com calma
perceber a minha cruz.
Quero uma montanha deitada
à minha sombra
num jardim desta cidade
que beba água do rio
emoldurado
quero o vergão da palavra
ronronada
pedindo sono ao colo que se dobra.
Quero o grito verde dos
pinhais
assobiado no escuro do medo
dos silvos e dos troncos
incendiado no verão dos
condenados
quero a chama acesa desse
inverno
carvão soprado, a ponta do
meu dedo.
Quero a distância de um só
salto
a lúgubre conquista
no raso campo da batalha justa
seara de corpos trespassados
quero a vitória cantad’à
janela
e que nenhum dos quatro ventos
lhe resista.
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